Esta é uma série de mini textos que foi escrita ao longo do mês de abril e que acompanha a história de amor de um casal a partir de algumas das mensagens que vão trocando. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Todas as personagens e momentos que vão acontecendo ao longo dos textos são pura ficção. É um formato diferente, mas espero que gostem mesmo assim!
"Envia-me um áudio. Preciso de ouvir a tua voz."
São 3 da manhã e envio-lhe esta mensagem. Não tenho esperança de que esteja acordado, mas mesmo assim arrisco porque preciso dele. Preciso de ouvir a voz dele. "Posso ligar-te, se quiseres."
Ele responde e eu hesito.
"Não quero que me ligues. Só preciso de um áudio com a tua voz. Por favor."
Fico uns minutos a olhar para o ecrã do telemóvel. A ler as mensagens que partilhámos durante o dia e à espera de receber o áudio que lhe pedi. Às 3:07 recebo um áudio de cinco segundos e o meu coração acelera. Encosto o telemóvel ao ouvido e deixo-me embalar pela voz dele.
"Quem me dera que estivesses aqui. Amo-te."
Ouço o áudio uma e outra e outra vez. Ele faz-me sorrir.
"Obrigada" respondo "Amanhã vou estar aí. Amo-te mais."
Espero que ele receba, veja e responda.
"Vou dormir, querida. Vou sonhar contigo. Amanhã não te vou largar e o sol vai brilhar, vais ver. Sonha comigo também. Um beijo. Amo-te até ao fim."
Vejo que o online em baixo do seu nome desapareceu. Foi dormir. Eu devia fazer o mesmo, mas não consigo. Não consigo deixar de pensar nele, no seu corpo, nos seus olhos... No que fizemos hoje. Foi um bom dia. Um dos melhores deste ano.
" Obrigada por hoje. Também te amo. Para sempre"
Respondi-lhe e desliguei o telemóvel. Estava deitada na minha cama, com os olhos postos no reflexo da luz de presença no teto. Os reflexos parecem raios de sol, o sol que ele disse que ia brilhar amanhã. Espero que tenha razão, porque estamos em Abril e até agora os dias de sol foram raros. Espero que amanhã faça sol e que possamos caminhar de mãos dadas na direção do nosso futuro.
#2
"Preciso de saber que mal é que eu te fiz"
Acordei com esta mensagem dele. Nem bom dia, nem se dormi bem. Quer saber que mal é que me fez.
"Bom dia também para ti"
Fica uns minutos sem dizer nada.
"Bom dia. Desculpa."
Agora estou confusa.
"Porque é que me estás a pedir desculpa e porque é que me perguntaste que mal é que me fizeste?"
Ele prefere responder num áudio de sete segundos com onze palavras.
"Querida, sinto que estás estranha comigo, diz-me o que se passa."
Tento recordar os acontecimentos dos últimos dias e analisar as atitudes dele.
"Não se passa nada." Minto.
"É claro que se passa alguma coisa. Diz-me o que é"
Penso se lhe devo dizer a verdade ou continuar com esta tortura.
"Pensei que soubesses." Respondo finalmente.
"O quê?" Okay.
"Pensei que soubesses que sou sempre eu a fazer um esforço para te ver." Fico à espera que ele veja a mensagem e que responda da forma defensiva que já lhe é característica.
"Isso não é verdade. Sabes bem que sempre que posso vou ter contigo." Pois sei. Mas também sei que na maior parte das vezes sou eu que comando o barco e deixo a minha vida para estar do lado dele. Mas eu respondo só "Eu sei."
"Ótimo. Acho que chegámos a um consenso." Consenso? Mas que raio?
"Se tu o dizes." São as últimas palavras que lhe vou dirigir hoje. Recuso-me a falar com alguém que não reconhece que está errado. Alguém que não reconhece que eu estou certa, porque nos últimos tempos sou eu que tenho feito os possíveis e impossíveis para salvar a nossa relação.
Desligo o telemóvel durante o resto do dia e só o volto a ligar às dez da noite. Vejo que me ligou cinco vezes e que enviou treze mensagens.
"O que queres dizer com isso?"
"Volta aqui."
"Quero saber o que se passa."
"Por favor."
"Vamos conversar."
"Não fiques de trombas outra vez." NÃO FICO DE TROMBAS OUTRA VEZ?
"Não"
"Espera"
"Não era isso que eu queria dizer."
"Desculpa"
"Por favor"
"Responde assim que vires estas mensagens"
"Amo-te"
Não acredito. Ele acabou de dizer que eu fico de trombas desnecessariamente, ao mesmo tempo que diz que me ama? Não me devia dar ao trabalho de responder, mas é isso que faço.
"Não digas que me amas, quando acabaste de dizer que fico de trombas quando fazes alguma coisa que não me agrada."
#3
"Não vou poder ir contigo às compras hoje, desculpa."
Estamos juntos há seis meses e é a segunda vez que desmarca algo que foi combinado com muita antecedência. Tenho vontade de responder: as desculpas não se pedem, evitam-se. Mas depois deixo-me estar quieta e opto por um simples e direto:
"Ok"
Eu sei que ele não gosta que eu lhe responda ok sem o a e o y no fim, mas temos pena.
"Querida, desculpa."
Ele que vá chamar querida à mãe dele.
"Não me chames querida."
Ele liga-me depois de ler a mensagem, mas eu rejeito a chamada. Não quero ter essa conversa com ele outra vez. Não agora. Não hoje. Deixo o telemóvel no silêncio e vou às compras sozinha. Ou talvez convida a minha melhor amiga. Preciso de roupa nova e preciso da opinião de alguém, queria a opinião dele. Mas enfim.
Passo a tarde no centro comercial e esqueço-me que ele existe por umas horas. Mas depois volto a enfrentar a realidade e vejo as mensagens por ler.
"Mariana, por favor"
"Já te pedi desculpa"
"Tenho uma consulta no dentista e não me lembrava" Claro, agora desculpa-se com o dentista.
"Liga-me assim que saíres do centro comercial."
Já saí do centro comercial. Já estou em casa. Não lhe vou ligar. Mas recebo uma mensagem dele.
"Mariana"
"É o meu nome." respondo.
"Perdoa-me." Ai, agora quer o meu perdão.
"Queres que te perdoe por me teres deixado pendurada em algo que tínhamos combinado há mais tempo do que a tua maldita consulta no dentista?" Ele não escreve durante algum tempo.
"Mas era só uma ida às compras." Só!? Claro. Era só uma ida às compras.
"Era só uma ida às compras para ti, mas para mim, era a primeira vez que ia às compras sozinha com o meu namorado. Desculpa lá se sou muito chata e se dou demasiado valor às pequenas coisas."
#4
"Quero saber o que há de errado em ti para eu me sentir tão bem quando estás perto de mim."
Arrependo-me de lhe ter enviado aquelas palavras, no momento em que ele as lê.
"Como assim? Não percebo…"
Ele respondeu da forma que eu já esperava. Ele não percebe como é que é suposto ele ter algo de errado, se normalmente as pessoas só se apaixonam por aquilo que é certo.
"Eu só me apaixono pelas pessoas erradas, Pedro. E tu... tornaste-te no maior e melhor erro, até agora."
Estou a corar. Estou a ficar sem ar.
"Querida, não sei que te dizer..."
Ele responde e eu continuo aflita.
"Não digas nada."
Não é preciso ele dizer nada, eu só queria que ele soubesse.
"Mariana, tu não te apaixonas pelas pessoas erradas, no apaixonas-te pelas pessoas certas, nos momentos certos. Não há nada de errado em mim"
Quero acreditar em tudo o que ele diz, mas tenho tantas dúvidas, tantos medos.
"Então e em mim, achas que há alguma coisa de errado?"
"Não, meu amor. Mariana, põe uma coisa na cabeça, tu foste a coisa mais acertada que já me aconteceu na vida."
O meu coração fica apertado.
"Vais continuar a achar isso, se o futuro nos separar?"
Ele hesita.
"Todos os dias."
#5
"Pela primeira vez em muito tempo, fizeste-me sentir confiante com o meu corpo. Obrigada. Amo-te."
Envio-lhe esta mensagem quando chego a casa. São 2h17. A minha casa está silenciosa, estão todos a dormir, tento não fazer barulho enquanto subo as escadas em direção ao meu quarto. Jantei com ele e estive com ele até agora. Jantámos num restaurante chique e fizemos amor num quarto de hotel coberto de velas e pétalas de rosa. Completámos sete meses de namoro.
"Não tens de agradecer. Tu és linda. É para isso que aqui estou, para te ajudar a entender que és linda e que o teu corpo é lindo. Amo-te, querida. Até amanhã."
Ele responde às 2h22 e eu sorrio enquanto visto o pijama e recordo o quão bom foi ter passado a noite toda com ele. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me feliz. Foi tudo tão bom, tudo tão intenso, tão bonito. Ele ajudou-me, guiou-me, elogiou-me, fez-me sentir bem. Ele ajudou-me a reconhecer o meu corpo, a amá-lo. Durante muito tempo estive nua debaixo dos lençóis, com ele, e não me senti envergonhada.
"Dorme bem." Sei que ele só vai ver a mensagem amanhã, mas envio na mesma. Quero que ele durma a pensar em mim, tal como eu dormi a pensar nele.
#6
"Então? O que achaste dos meus pais?"
Envio-lhe esta mensagem pouco depois de ele sair de minha casa. A minha mãe fez anos e, pela primeira vez, convidei - o a vir cá a casa para conhecer os meus pais.
"Não vou negar que o teu pai me assustou um bocadinho quando entrei em tua casa e com aquelas perguntas todas. Mas entendo que quer proteger a menina dele. A tua mãe é uma querida. Fiquei encantado. Agora já sei porque é que és tão linda." A resposta dele faz-me sorrir e surgem de imediato borboletas na barriga. Os meus pais também gostaram bastante dele e disseram que esperam que a nossa relação seja para durar. Achei um disparate. À partida só me envolvo com alguém se sentir que é para durar.
"Os meus pais também gostaram de ti. Esperam que não me abandones." Disse eu.
"Pois, esqueci-me de lhes dizer que nós não somos para durar, nós somos para casar." O meu coração salta do peito, tal é a felicidade que me invade.
"Casar?" É a única coisa que os meus dedos conseguem escrever.
"Claro. Não queres?" Acho que o assustei.
"Claro que quero. Mas quando? Não achas que ainda é cedo?"
"Neste momento, acho. Mas amanhã já posso não achar. Mas pensa nisso. Porque eu quero-te para sempre." Bolas, ele é mais romântico e querido que eu.
"Prometes?" Quero ter a certeza.
"Prometo. Todos os dias até ao fim." Pronto. Era só isso que precisava de ler.
#7
"Tens mesmo de ir?"
Algumas horas antes de partir, recebo esta mensagem dele. Sinto um aperto no coração antes de responder. Tenho medo que ele se esqueça de mim, que arranje outra pessoa enquanto eu estou fora.
"Tenho..." A minha vontade era de dizer que não. Que não tenho de ir. Que não quero ir. Que não vou. Mas na realidade, eu quero mesmo ir. Eu preciso de ter esta experiência.
"Como é que eu vou sobreviver um mês sem ti? Como é que eu vou celebrar o nosso oitavo mês de namoro, quando estás longe de mim? Raios... Não podias ter ido para mais perto? Tinha mesmo de ser Itália?" Na verdade, não havia outra opção. Este ano, a escola elegeu Itália como o destino dos alunos inscritos no programa Erasmus. Eu sou uma das melhores alunas da turma, por isso fui das primeiras a receber a proposta. Aceitei logo, mas só pensei no Pedro depois. Fui um pouco egoísta, mas eu queria isto há tanto tempo...
"Eu sei, meu amor. Também não sei como vou conseguir ficar um mês sem te beijar, sem te tocar... Mas vai passar rápido, vais ver... Mas não te esqueças de mim… Por favor..." As lágrimas ameaçam cair e por momentos a ansiedade quase toma conta de mim… E se não resultar? E se ele se cansar de esperar e me trocar por outra?
"Não! Não! Nunca! Nunca te esquecerei! Nunca te vou trocar! Vai doer! Claro que vai doer… Mas vamos tentar, vamos fazer acontecer e sobreviver a este mês, juntos. Está bem?" Digo que sim! Mil vezes sim! Entre soluços escrevo que sim e agradeço e digo que o amo tanto, mas tanto, que o meu coração transborda de amor. Preciso de dormir, porque amanhã é o grande dia, mas antes leio a sua última mensagem do dia.
"Amo-te. Até ao fim."
#8
"A minha mãe está a chamar-me para jantar. Já volto."
Estou há duas semanas em Itália. Há duas semanas que a nossa relação vive à base de chamadas de voz, chamadas de vídeo, mensagens de voz e mensagens de texto. Acho que até está a correr bem, está a resultar, mas nos últimos dias sinto-o estranho, distante e não entendo porquê. Quando finalmente arranjo algum tempo livre para lhe ligar, ele diz que vai jantar e eu não consigo esconder a desilusão nem consigo evitar um longo suspiro. Respondo-lhe com um até já e espero que volte a estar online para perguntar o que se passa. Sei que vai dizer não se passa nada e que são apenas saudades, mas não acredito que seja só isso.
"Voltei." Diz ele.
"Olá." Digo eu. "O que se passa contigo?" pergunto.
"Como assim?" A típica resposta de quem se faz de desentendido.
"Sinto-te distante. Estranho. O que passa?"
Ele hesita e demora-se antes de começar a escrever a resposta.
"Não é nada mais para além de saudades e de dor por não te conseguir tocar." Aquelas palavras acertam como um tiro no meio do meu coração e dói. Muito.
"Eu também sinto essa dor. E é insuportável. Mas falta pouco…" Respondo, mas sinto-me impotente e sinto também que há algo mais para além das saudades que ele diz ter.
"Tens a certeza que não se passa mais nada?" Arrisco mais uma vez.
"Sim. Está tudo bem." Tento acreditar nele e esquecer estas minhas paranoias. Despeço-me e adormeço. Amanhã será mais um longo dia. Durmo um sono sem interrupções e, quando desperto e vejo as horas, vejo uma mensagem da minha melhor amiga Clara. O meu coração rasga - se e sinto-me a perder o chão, quando os meus olhos encontram aquelas palavras.
"Bom dia, Mariana. Aconteceu uma coisa grave. O Pedro foi preso. Liga-me assim que puderes. Um beijo."
#9
"Mariana? Estás aí?" A voz da Clara faz-me descer à terra.
"Clara, estou aqui. Desculpa." Respondo com a voz a tremer, o corpo a suar e o medo a apoderar-se do meu coração.
"Não faz mal. Antes de mais, como é que estás?" Como é que eu estou? Mal. Estou mal porque o meu namorado aparentemente foi preso e eu estou em Itália e não posso fazer nada.
"Não sei… Sinceramente não sei… Só tenho vontade de me enfiar num avião e voar para Portugal para junto dele." Ela suspira do outro lado e eu tento conter as lágrimas que estão aflitas por cair.
"Mariana, não há nada que possas fazer e também não vais voltar para Portugal. Eu não quero isso e o Pedro também não. Vais ficar aí até ao fim. Promete." Por esta altura já tenho de limpar o rosto, que está encharcado de lágrimas e espelhado de aflição.
"Prometo... Eu vou ficar até ao fim… Mas diz-me… Ele está bem? O que aconteceu?" Ela espirra do outro lado, eu digo santinho e responde, deixando-me ligeiramente mais tranquila.
"Ele está bem. Vão solta-lo em breve, mas tivemos de pagar a um advogado para tratar das coisas."
Advogado!? Mas que raios…!?
"Um advogado? Mas porquê?" Eu exijo saber!
"Ele bateu a um polícia"
Raios, Pedro! Não acredito nisso…
"Estás a brincar!? Mas o que é que lhe deu!?"
Não entendo… Ela suspirou e pediu-me para ter calma… Isso não é bom…
"Ele e os amigos foram beber uns copos ao Bar Dom Quixote e ele bebeu demais e.… atirou-se à namorada de um outro rapaz qualquer. O namorado dela apanhou - o e acabou mal... Muito mal... A ponto de partir o nariz ao Pedro e ao outro rapaz… Tiveram de chamar a polícia. Foram os dois 'convidados' a ir à esquadra, mas o Pedro não quis e virou - se contra o agente… "
Chega… Não consigo ouvir mais… Não consigo acreditar… Não posso acreditar… Faltam-me o ar, estou inundada de lágrimas, estou a tremer… Estou destroçada e cheia de perguntas… Quero saber a que ponto ele se 'atirou' aquela rapariga, mas não consigo falar… É demasiado doloroso… Antes de desligar a chamada, demasiado perturbada para ouvir aquilo que a Clara disse depois, ouço - a dizer:
"Ligo-te mais tarde. Vai ficar tudo bem."
Será que vai mesmo?
#10
"Mariana? Estás bem? Liga-me, por favor."
"Mariana, calculo que já te tenham dito o que eu fiz, fui estúpido, desculpa-me… Liga-me, por favor, deixa-me explicar."
"Amor, por favor, estás a fazer-me sofrer com este silêncio, diz qualquer coisa."
Esta é só uma amostra das cerca de trinta mensagens que recebo dele num só dia. Vejo apenas pela barra de notificações e recuso-me a responder, recuso-me a falar com quem quer que seja, para além da minha mãe e do meu pai. Recuso-me a recordar o que o Pedro fez. Não estou zangada nem quero acabar com ele, mas estou desiludida e preciso de uma explicação concreta. Mas antes de concordar em falar com ele, ouvir a sua voz, ouvir uma explicação, mas não agora. Preciso de tempo. Preciso de usufruir dos últimos dias de Erasmus com calma, embora dentro de mim more uma onda gigante de dor prestes a rebentar.
"Diz ao Pedro que falo com ele quando regressar a Portugal. Preciso de tempo."
Envio esta mensagem à Clara porque não tenho coragem de enviar ao próprio remetente. Ao que ela responde:
"Claro. Tens todo o tempo do mundo. E tens-me a mim sempre que precisares."
Estou prestes a chorar.
"Sempre?"
"Sempre, amiga. Sempre."
Eu tenho a melhor amiga do mundo.
"Posso ligar-te hoje?" Pergunto.
"Claro. A que horas?"
"Depois do jantar."
E liguei-lhe e saiu de cima de mim um peso mórbido.
#11
"Diz-me quando estiveres no avião. Por favor." A primeira mensagem que leio no último dia em Itália é dele. Quer que o avise quando estiver no avião, no entanto, não falei com ele durante as últimas duas semanas e desconfio que vá chorar e dar cabo das minhas emoções quando me encontrar com ele de novo.
"Bom dia, amiga! Já falta pouco! Avisa-me quando estiveres no avião. Um beijo."
A segunda mensagem é da Clara e fico novamente com o peito cheio de esperança de orgulho por ter tanta coisa que lhe contar sobre este país.
"Bom dia, filha. Avisa a mãe quando estiveres no avião. Faz boa viagem!"
A terceira mensagem é da minha mãe. Embora seja quase maior de idade, sou muito apegada à minha mãe e nunca passei tanto tempo longe dela e longe do meu país. Só preciso que me aconchegue e me dê os parabéns por ter sido corajosa e ter conseguido alcançar esta meta tão importante para a minha vida.
No último dia, almocei com os meus restantes colegas e com os professores responsáveis num restaurante de fast-food. Regresso à residência para acabar de fazer as malas às 15h28 e o avião levanta voo às 16h49. Não sei o que me espera, nem sei se estou pronta para voltar à vida real.
#12
"Senhores passageiros, estamos prestes a chegar ao nosso destino. Por favor, mantenham-se nos vossos lugares e com os cintos bem colocados."
Portugal está perto. Não consigo controlar a ansiedade e começo a transpirar. Bebo água, respiro fundo, mas nada parece resultar… fecho os olhos e agarro-me aos braços do assento, dizendo para mim mesma:
"Não é o fim do mundo. Vai correr tudo bem e não vais ser agressiva com o Pedro. Vais perguntar-lhe o que é que aconteceu e depois decidir se acabas com ele ou não. Vai correr tudo bem."
Cerca de trinta minutos depois, saio do avião em busca das malas e da minha família. Quero ver a minha mãe e abraçá-la, mas a primeira pessoa que vejo é o Pedro e o meu coração para. Penso no que devo fazer: se ignorá-lo agora é lidar com aquilo depois, ou absorver o seu cheiro, abraçando-o e premiando-o com um belo par de estalos a seguir. Opto pela segunda opção.
"É tão bom ver-te outra vez… Desculpa… Sei que tenho muito para te explicar… Sei que precisas de tempo, mas, por favor, não me deixes…"
Enquanto estamos abraçados ouço as desculpas dele, apetece-me chorar…
"Vamos jantar hoje" Digo eu. E ele suspira e diz que sim. "Vamos conversar. Mas antes, preciso de fazer uma coisa." Saio dos braços dele e marco a minha mão direita numa das suas bochechas. Até estalou e captou a atenção das pessoas que estavam à nossa volta. Depois, disse-lhe que lhe mandava mensagem com a hora e o sítio onde íamos jantar e fui ter com a minha mãe, com o meu pai e com a Clara. E senti-me a mulher mais poderosa de sempre.
#13
"Desculpa pelo estalo" digo, mal olho para a sua bochecha, que está vermelha e marcada pela minha mão.
"Não faz mal" ele sorri desajeitadamente e passa a sua mão pela marca que deixei "Sei que mereci" Ficamos a olhar um para o outro durante uns segundos, até vir um empregado registar os nossos pedidos.
"O que é que te passou pela cabeça. Não me amas!?" Sou a primeira a quebrar o gelo e noto que ele ficou surpreendido com a frontalidade da questão.
"Não. Não! Pelo amor de Deus, Mariana, claro que te amo! Eu… Eu não sei o que me passou pela cabeça… Eu só… foi uma atitude estúpida, eu estava bêbado e carente e... Quase que te vi naquela rapariga…"
Como não digo nada, ele insiste.
"Por favor, perdoa-me."
Parte de mim quer perdoa-lo, mas a outra parte diz-me para o largar, porque ele tornou-se mentalmente dependente de mim ao ponto de me ver em todo o lado e eu não estou pronta para passar por esse tipo de relação.
"Não posso, Pedro." Ele fica pálido. "Não posso ficar presa a alguém que me vê em todo o lado, alguém tão dependente, alguém que não aguenta estar um mês longe da sua namorada e que começa a imaginar a pessoa que ama noutro corpo. Não posso, Pedro."
Vejo que os seus olhos brilham. Estou a destruir o seu coração. Estou a destruir-nos e provavelmente vou arrepender-me mais tarde, mas não posso continuar assim.
Agarro na mão dele, beijo-a e começo também a chorar. Vou-me embora.
"Seremos sempre um do outro, mas eu agora preciso de ser de mim própria."
FIM
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