Esta é uma série de mini textos que foi escrita ao longo do mês de maio e que acompanha a luta da Eva contra si própria, contra as suas inseguranças e a sua primeira história de amor, que acabou por ser um pesadelo. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Todas as personagens e momentos que vão acontecendo ao longo do texto são pura ficção. É um formato diferente, mas espero que gostem mesmo assim!
1. EU
Depois de abrir a porta e entrar em silêncio com a aprovação de quem está lá dentro, sento-me. À minha frente tenho a pessoa que, dizem os meus pais, me vai dar respostas e me vai ajudar a ultrapassar os obstáculos interiores. Espero bem que sim, caso contrário eles vão pagar uma mensalidade absurda por nada.
- Bom dia. Obrigada por teres vindo. - diz ela, calmamente, a investigar-me atentamente.
- Só estou aqui porque os meus pais me pediram. Dizem que me vai fazer bem. - respondo.
- E tu? Achas que te vai fazer bem?
- Não sei. Até agora acho que é uma perda de tempo. - A minha afirmação provoca-lhe desconforto e consigo sentir que ela já percebeu que sou só mais uma para lhe preencher o leque de "casos perdidos".
-Bem... Quando tenho um paciente novo, eu começo sempre a nossa jornada fazendo-lhe uma pergunta. Estás pronta para responder? - não consigo deixar de franzir o sobrolho
- Acho que sim. Mas ainda não perguntou nada. - Ela põe-se confortável e vai direta ao assunto.
- Quem és tu? - fico calada
- Sou a Eva. - Esta foi claramente a pior resposta de sempre
- Eu sei que o teu nome é Eva. Mas não sei quem é a Eva. - As lágrimas ameaçam cair e eu sinto-me ridícula porque não sei o que está a acontecer aqui
- Eu... Eu também não sei. - Ela age como se já fosse hábito ouvir essa resposta
- Okay, vamos por partes. Diz-me três coisas das quais tu gostes. - Fácil
- Gosto de comer. Gosto de desenhar. Gosto de chuva. - Ela abana afirmativamente a cabeça e tira apontamentos
- Muito bem. Agora diz-me três coisas das quais tu não gostes. - Fácil também
- Não gosto da escola. Não gosto de conviver com muitas pessoas. Não gosto de cães. - Continua a tirar apontamentos
- Estou a ver... Achas que tens alguma qualidade? - esta pergunta faz-me pensar
- Hm... Acho que tenho uma letra bonita... E sou paciente, tenho mais paciência do que devia.
- Muito bem. De um a cinco, quantas pessoas achas que moram em ti? - espera, o quê!?
- Como assim?
- Estás aqui há dez minutos e já sei que tu tens mais do que uma pessoa dentro de ti. E essas duas pessoas, não gostam uma da outra. Para que elas se tornem uma e tu te consigas encontrar, precisamos que elas se deem bem.
- Isto parece-me uma estupidez...
- Oh, mas não é nada uma estupidez... tenho outra pergunta para ti... Já gostaste de alguém? - estremeço
- Não. - a minha voz sai fria como gelo ao ponto de a assustar, mas não de a convencer
- Qual era o nome dele? - estou com tanta raiva dela que neste momento era capaz de lhe dar um tiro
- Miguel - digo entredentes
- Como correram as coisas com o Miguel? Estavas apaixonada? - não consigo, não consigo, não consigo viver isto outra vez, não quero recordar aquilo que me destruiu, não quero recordar as promessas que ele fez, as vezes que ele me prometeu tudo e nunca me deu nada. Não posso. Não quero.
- Podemos falar noutra coisa, por favor? - já não vejo nada por causa das malditas lágrimas que inundam a minha cara, mas percebo que ela está a olhar para mim, a examinar-me. Mesmo sem falar, eu sei que ela não vai desistir e vai insistir exatamente neste ponto. O assunto mais sensível da minha vida.
- Não. Nós temos de falar nisto Eva. Sabes que sim. - Olha para o relógio - a nossa sessão está a acabar, mas na próxima vamos escavar um pouco mais fundo e quero que me fales do Miguel... - não aguento. Não a deixo acabar e saio porta fora a gritar:
- Eu quero que você vá à merda!
Ela quer ajudar-me, mas ao falar do maior erro da minha vida, só está a ajudar a piorar o meu estado.
2. MIGUEL
Foi há dois anos, na maldita discoteca da minha cidade, que lhe pus os olhos em cima pela primeira vez. Era só mais um rapaz. Um rapaz como todos os outros. Um rapaz vestido com um hoodie e umas calças de fato treino pretas. Olhou para mim de esguelha e piscou-me o olho. À primeira vista meteu-me nojo e revirei os olhos, mas quando ele não estava a olhar para mim eu mirei-o e percebi que ele até era engraçado. E bastante atraente. Atraente demais.
Fui para casa a pé e, no caminho, alguém puxou o meu braço e me levou para uma rua escura. Fiquei em pânico, mas ele pôs um dedo sobre os meus lábios e disse:
- Xiu... Eu não te vou fazer mal... É só que tu estavas a deixar-me louco... - louca fiquei eu com os seus olhos azuis, que pareciam os olhos de um gato e com a sua voz hipnotizante - Como é que te chamas?
- E... Eva... - sussurrei com a voz a tremer, o coração a bater descontroladamente e cheia de medo
- Que nome lindo... Sabes, Eva... Eu gostava muito de fazer coisas contigo... gostava muito de te ver outra vez amanhã... E no dia seguinte... Todos os dias... - foi-se embora, deixou-me atordoada com os lábios queimados pela sua boca que invadiu fortemente a minha. Fiquei a pensar em todas as coisas que ele disse que queria fazer comigo, perguntando-me como é que era possível um rapaz como ele querer alguma coisa com uma rapariga como eu.
Nessa noite não dormi. Na manhã seguinte passei na rua onde ele me beijou pela primeira vez e ele estava lá. Recuei, quis ir embora, mas os meus pés simplesmente não saíram do lugar. Fiquei ali, a olhar para ele, que estava sentado no chão serenamente a dar festas a um gato vadio.
- Ainda não me disseste o teu nome. - Fiquei sem dizer nada durante uns bons minutos, apenas a contemplar aquele cenário. Depois quebrei o gelo, assustando-o e afugentando o pobre gato preto a quem ele estava a dar mimos.
- Miguel. - disse ele, levantando-se e sacudindo o pó das calças.
- Miguel. Não gosto do nome. - Ele riu-se - O que é que tu queres de mim, Miguel?
- Quero amar-te. - Como é que é!?
- Queres amar-me? Mas nem me conheces! E além disso, eu não quero nada com ninguém. Não estou disponível. Nem sei como fui capaz de te deixar beijar-me ontem... - dei meia volta e estava com intenções de me ir embora quando ele me puxou, me beijou novamente e pôs a mão dentro das minhas calças. Eu não estava à espera daquilo. Nunca ninguém me tinha feito aquilo. Nunca ninguém me tinha tocado daquele jeito. Tentei acalmar-me e disfrutar, mas o meu corpo sentia repulsa e então comecei a gritar e a contorcer-me.
- LARGA-ME! MAS O QUE É QUE PENSAS QUE ESTÁS A FAZER!? - ele largou-me e começou a dar murros na parede atrás de nós, desesperadamente.
- Desculpa, desculpa, Eva... é só que... A soube há dias que a minha irmã morreu e... Eu estou carente... Eu preciso de alguém... Quando eu te vi o meu instinto disse-me que tu eras a pessoa certa... Que me podias ajudar... Que eras a pessoa certa para eu amar e deixar de ter esta dor tão grande... - as palavras dele partiram o meu coração porque eu passei exatamente pelo mesmo. Deixei-o encostar a sua cabeça ao meu peito, deixei-o chorar, deixei-o beijar-me e fomos ver o pôr do sol. Combinámos encontrar-nos todos os dias no mesmo beco até sentirmos (ou não) o amor. Azar o meu, que senti mesmo sabendo que da parte dele o sentimento podia não surgir. Mesmo sabendo que não tinha o seu amor como garantia.
3. FALAR DELE
Chegou o dia da segunda sessão e eu fui literalmente arrastada pelos meus pais para dentro do consultório. Não queria ir. Não podia ir. Eu sabia que ela me ia obrigar a falar sobre ele e eu simplesmente não estava pronta. Eu simplesmente não aguentava lembrar-me dele, daquilo que ele me fez passar. Da iludida que fui. Do seu suposto amor.
Depois de me sentar, respirei fundo e olhei para ela da forma mais suplicante que pude.
- Olá Eva.
- Olá Doutora.
- Estás pronta?
- Não.
- Mas sabes o que vai acontecer hoje, não sabes?
- Sei.
- Então, por onde queres começar? - encolhi os ombros - Talvez me possas dizer como é que ele entrou na tua vida?
- Ele entrou da mesma forma que saiu. - digo - Com um simples olhar.
- O que é que esse primeiro olhar provocou em ti?
- Esperança. - Fico surpreendida com a rapidez da minha resposta e com o facto de não estar, de todo, tão perturbada como esperava.
- Esperança em quê?
- Numa oportunidade. No amor.
- Amava-lo? - esta pergunta fez-me pensar
- Sim. Mas não da forma que ele me amava.
- Como assim?
- O nosso amor simplesmente não era compatível. A fome dele era insaciável. Ele queria tudo à bruta, tudo para ontem, tudo intenso... E eu... - estava a ficar sem ar - Eu não sabia o que era amar alguém... Eu queria ir com calma... Eu não queria tanto, não queria tão de repente... - um ardor no peito, as lágrimas que caíam ferozmente, as memórias que nunca estiveram tão vivas
- Quando é que percebeste que isso não era saudável? - olhei para ela nos olhos, durante uns momentos, antes de responder
- Quando me esqueci de mim.
- Mas ele fazia-te feliz?
- Fez-me feliz durante metade do tempo que estivemos juntos.
- As pessoas sabiam que vocês estava, juntos? - ela está a perguntar-me isto, mas na verdade já sabe a resposta
- Não.
- Tu querias que as pessoas soubessem?
- Queria.
- As coisas teriam sido diferentes se as pessoas soubessem desde o princípio?
- Sim. Teriam sido piores. - okay... Isto vai doer... Eu sei o que vem a seguir e é exatamente por isso que eu não queria falar sobre ELE
- Porquê? - a sua expressão sobre mim, diz-me que ela precisa de ouvir a verdade sair da minha boca, mas eu não quero dizer a verdade, por isso fecho os olhos, dobro-me sobre os joelhos e choro - Eva... sabes que tem de ser... Tens de ouvir a verdade sair da tua própria boca, não podes agir como se nada fosse. - Desculpa!!??
- AGIR COMO SE NADA FOSSE? DESCULPE!? A SENHORA ACHA QUE EU CONSIGO AGIR COMO SE NADA FOSSE DEPOIS DE SABER QUE TIVE UMA RELAÇÃO ABUSIVA COM UM RAPAZ QUE ERA O MEU PRÓPRIO IRMÃO!? - gritei, com todas as minhas forças. Ela ouviu com a atitude mais calma do mundo, como se já estivesse treinada para não reagir perante situações assim. E eu saí porta fora. Não conseguia mais estar ali.
4. O PRIMEIRO MÊS
Oficialmente não éramos namorados. Não houve um pedido. Não houve declarações, mas havia amor, disso eu tinha a certeza. Precisamente um mês depois daquele primeiro olhar na discoteca, eu perdi aquilo que, dizia a minha avó, era mais valioso em mim. A minha pureza. A folha de papel que era branca e lisa, ficou amarrotada. Não foi nada como eu esperei. Não foi num quarto de hotel cheio de pétalas de rosas e iluminado à luz das velas. Não foi no banho. Não foi numa cama. Não foi na parede das traseiras de um bar imundo. Foi num carro. Num parque de estacionamento abandonado.
- Vem para o meu colo. - disse ele, depois de estacionar o carro e sentir que estávamos seguros naquele lugar, mas eu hesitei. - Vem para o meu colo, Eva. Quero-te. Agora. - a voz dele era urgente, apaixonada, mas fria.
- Agora? - eu não sabia o que fazer, o que pensar, não sabia se lhe havia de dizer que não estava pronta, não sabia se ele sabia que eu ainda era virgem, não sabia nada. Mas fiz o que ele pediu.
Ele sorriu e, de início, foi muito querido para mim. Senti-me uma princesa no meio dos seus beijos, mas depois algo mudou. Ele desapertou as calças com pressa. Meteu a mão por baixo do meu vestido com brutidade e com urgência. Entrou dentro de mim de uma forma horrível. Magoou-me. Mas eu não conseguia falar. Não consiga olhá-lo nos olhos. Não senti magia nenhuma. Sentia-me a própria espectadora do momento que devia ser um dos mais especiais da minha vida. Fiquei aliviada quando ele acabou e quando percebi que não ficou nada dentro de mim, porque de tanto lutar, o motor não ficou a trabalhar como deve ser.
- Leva-me para casa. - pedi-lhe, mas ele não ouviu porque estava numa luta interior. Com as mãos a segurar a cabeça, a culpar-se pela vulnerabilidade da sua masculinidade.
Saí do carro sem me despedir e fui para casa. Não estava ninguém em casa e isso deixou-me mais tranquila. Pela primeira vez em dois meses, entrei no quarto da Verónica, a minha falecida irmã. Peguei numa t-shirt e, depois de perceber que o seu cheiro ainda estava presente, levei-a para o meu quarto e fechei a porta. Tomei um banho, esfreguei-me o mais que pude até sentir que a minha pele não estava impregnada com o cheiro e toque dele. Vesti um par de cuecas, enfiei a camisola da minha irmã e tomei uma mão cheia dos primeiros comprimidos que encontrei na farmácia da casa de banho. Eu só queria paz.
5. AMIGOS
Terceira sessão. Entro no consultório, mais uma vez, arrastada pelos meus pais e com medo de que continuemos a falar dele. Depois de bater e de ter autorização, entro e encontro a Doutora sentada na mesma poltrona amarela de sempre, a escrevinhar algo no seu caderno de apontamentos.
- Olá Eva. Senta-te. - Eu faço o que ela me diz - Como estás? - encolho os ombros e ela olha-me por cima dos seus grandes óculos azuis graduados e abana a cabeça - Muito bem. Hoje não vamos falar sobre o Miguel. - Eu respiro de alívio - Vamos falar sobre as tuas amizades.
- Amizades? - fico confusa
- Sim. Quero que me fales dos teus amigos. - Não consigo evitar e começo a rir-me - Qual é a graça? - pergunta ela
- Não tenho amigos. - respondo e deixo-a perplexa
- Não tens amigos?
- Não.
- Não acredito que uma rapariga de dezanove anos como tu não tenha amigos. - Engulo em seco
- Eu tinha amigos. Mas afastei-me de todos eles quando comecei a dedicar-me por inteiro à minha relação com o Miguel.
- E porquê?
- Porque eles não iam compreender. Não me iam apoiar. Iam pedir-me para me afastar dele...
- E tu não os ias ouvir mesmo sabendo que a tua relação com o Miguel era tóxica? - fiquei sem palavras
- Sim.
- O Miguel era dependente de ti e tu eras dependente dele. Tinha-te feito bem teres alguém com quem desabafar sobre as tuas inseguranças...
- Eu não precisava de ninguém. Só precisava dele. Ele era o meu único amigo... - respondi-lhe eu, num fio de voz. A Doutora ficou a observar-me durante algum tempo, até se levantar e ficar de pé, em frente à janela, a olhar lá para fora.
- Eva, tu falavas com ele sobre o teu dia a dia? Sobre os teus problemas? Disseste-lhe que também tinhas uma irmã que morreu? - eu sentia cada pergunta que ela fazia como uma facada bem no fundo do meu coração.
- Não... A única coisa que ele sabia era que a minha irmã também se chamava Verónica... - as lágrimas começaram a cair e eu simplesmente não conseguia evitar - ele achou isso uma feliz coincidência
- Alguma vez desconfiaste que o teu pai tinha tido outra mulher antes de ter casado com a tua mãe? Falavam disso em casa?
- Não... - era verdade... Eu não sabia... A minha irmã não sabia... O Miguel não sabia... - isto estava a tornar-se insuportável
- E os amigos dele? - perguntou ela, já sentada na poltrona amarela a escrever alguns tópicos no seu caderno. Aquela era a pergunta que eu mais receava. A pergunta que mais me doía. - Os amigos dele tratavam-te bem? Conheciam-te? - abanei afirmativamente a cabeça e fechei os olhos com força, tentando que as memórias não viessem à superfície de novo. - Alguma vez algum amigo do Miguel teve alguma atitude menos correta contigo? - não, não, não, não quero recordar, não quero falar, não quero lembrar-me dos rapazes nojentos que ele tinha como amigos, não me quero lembrar do Alexandre... Não me quero lembrar do que ele me fez...
6. ALEXANDRE
O Alexandre entrou de rompante na minha vida dois meses depois de eu ter conhecido o Miguel. O Miguel apresentou-mo na discoteca que serviu de pano de fundo à intensidade da nossa relação e eu percebi logo que estava condenada.
- Como é que é mano? - O Miguel cumprimentou o Alex ao mesmo tempo que me empurrava em direção à mesa onde o seu amigo estava sentado. Eles trocaram um aperto de mão e depois o Miguel apresentou-me ao seu amigo - Alex, esta é a Eva, a minha miúda. - Eu sou a sua miúda!
- Vejam só! E que bonita que ela é! Saiu-te a sorte grande, meu! - senti-o examinar o meu corpo de cima a baixo. Senti a intensidade dos seus olhos verdes pousar sobre a minha minissaia preta e subir até ao meu decote. Senti um arrepio, senti nojo, senti uma enorme vontade de desaparecer.
- Querida, podes ficar aqui com o Alexandre enquanto eu vou pedir bebidas para nós? - NÃO! NÃO, NÃO ME FAÇAS ISSO, POR FAVOR!
- Claro. - Acabei por responder - Pede um mojito para mim, por favor. - Ele deu-me breve beijo e foi em direção ao bar. E eu quando dei por mim estava numa mesa redonda, minúscula, sentada ao lado do Alexandre.
- Então... Eva... Parabéns... conseguiste conquistar aqui o coração do Miguelito... Mas sabes? - ele começou a aproximar a sua boca da minha orelha e a sua mão descer para o meu colo. Tentei impedir, mas ele simplesmente não deixou, ele simplesmente me magoou ainda mais - Isto foi tudo uma aposta... Eu estava naquele bar, naquela noite... Nós apostámos que tu ias ser fácil... Que tu ias cair que nem um patinho... - as palavras dele eram geladas, insuportáveis... A mão dele estava cada vez mais próxima da minha intimidade e eu só queria fugir... Mas eu enchi-me de coragem e respondi-lhe à letra, antes de me levantar e ir embora, não aguentava mais:
- Sabes Alexandre... Eu posso ser fácil, mas é muito difícil arranjar raparigas como eu... - ele começou a rir-se - Porque a maior parte das raparigas já está habituada a lidar com rapazes porcos como tu, que só se sentem bem a destruir a vida dos outros e que não têm onde cair mortos. Mas eu espero que tu caias num poço bem fundo e morras depressa. - Reparei que ele. Ficou perplexo e que o Miguel se estava a aproximar com as bebidas, mas mesmo assim cortei caminho entre as pessoas, encontrei a saída e corri o mais depressa que pude em direção à minha casa. Mas durante muito tempo ouvi o Miguel aos gritos, a pedir desculpa pelas atitudes do "amigo", a pedir-me para voltar. Mas eu não voltei. Nunca mais voltei a meter os pés naquela discoteca.
7. AS DESCULPAS
Não dirigi a palavra ao Miguel durante uma semana. E durante essa semana, todos os dias, recebia uma mensagem sua com um pedido de desculpas. A verdade é que, por muito que ele tente, nunca conseguirá o meu perdão pelas atitudes deploráveis do seu amigo. E pelas atitudes deploráveis que ele tem comigo sem dar conta.
Mas, apesar de tudo, o meu coração estúpido continua a amá-lo. Mas preciso de fazer algo por mim mesma, porque me sinto na lama e estar ao lado dele, embora me deixe bem, é tudo o que eu não quero.
Ao nono dia, estava eu a ir para casa depois de sair da escola, fui puxada por alguém totalmente vestido de preto, que me encostou à parede de um beco sem saída. O mesmo beco. A mesma pessoa. Ele.
- Larga-me! LARGA-ME! - ele tapou-me a boca com a mão e olhou para os meus olhos com uma expressão suplicante
- Eva, deixa-me falar contigo. Por favor. Só cinco minutos. Depois deixo-te ir. - a voz dele implorava por perdão, implorava por mim. Eu suspirei e abanei a cabeça afirmativamente. Só. Cinco. Minutos. - Por favor. Desculpa-me. Desculpa o Alexandre. Ele não foi bom para ti e sei que eu também não tenho sido grande coisa. Tenho sido uma merda contigo e tu não mereces, porque não fizeste nada de mal. O problema é comigo. Eu quero ter algo bonito e sério contigo, quero um compromisso... quero que me ames, que não tenhas medo... Mas não sei como... - ele estava à minha frente, a chorar que nem um bebé e eu não sabia como reagir... Eu soltei-me das minhas amarras, respirei fundo e voltei para os seus braços.
- Tem calma... vamos ficar bem... vai ficar tudo bem... vamos amar-nos... - tentei tranquilizar a sua alma cheia de medo, deixei que ele repousasse a sua cabeça no meu peito. E ficámos assim, a absorver o cheiro um do outro. Unidos de novo pelo perdão.
8. VIRGEM
Último dia da semana era sinónimo de sessão com a psicóloga. Tornou-se uma rotina que eu, surpreendentemente, ia começando a aceitar sem reclamar. Habituei-me à ideia de ver aquela mulher estranha, de cinquenta anos, todas as semanas sentada na mesma poltrona amarela. Gostava de saber qual é a sensação de passar os dias a ouvir os problemas das pessoas e aconselha-las. Será que as psicólogas também andam na psicóloga? Como será que fazem para não se deixarem afetar com o sofrimento e as histórias dos outros? Tenho tantas perguntas... Talvez um dia ganhe coragem para lhas colocar...
Bato à porta, entro e sento-me à sua frente, na mesma cadeira de sempre. Amarela a combinar. Ela tem os óculos equilibrados na ponta do nariz e olha-me com um sorriso no rosto, ao mesmo tempo que fecha o caderno onde escrevinhava.
- Olá Eva. Como estás hoje?
- Estou bem, acho.
- Como estão a correr as aulas? - vamos ignorar o facto de eu ter chumbado no décimo primeiro ano por causa da deceção e do choque que foi descobrir que ele era meu irmão.
- Estão a correr bem.
- Ótimo. Hoje queria falar contigo sobre uma coisa diferente, espero que não me leves a mal. Se te sentires desconfortável com o rumo da conversa, diz que mudamos de assunto.
- Okay...
- Bem, achas que me podes falar um bocadinho de como foi a tua relação com o Miguel, a nível sexual? - O QUÊ!? SÓ PODE ESTAR A BRINCAR! Eu engoli em seco... estava a começar a ficar com calafrios, com uma pressão no final da minha zona abdominal...
- Como assim? Está a perguntar se nós fazíamos sexo?
- Exatamente. - Ela deve querer que eu fale sobre a minha vida íntima, assim sem mais nem menos - Ouve, Eva, sei que não te sentes confortável a falar sobre isso. Sei que sou uma estranha para ti. Mas era fundamental que conseguíssemos explorar este ponto e, eventualmente, perceber se os teus traumas estão associados ao facto de teres tido relações sexuais com o teu irmão. - Eu estava prestes a cair para o lado, mas fiz os possíveis para me manter desperta
- Okay... Acho que podemos tentar...
- Ótimo. Então diz-me, eras virgem quando o conheceste? - as pessoas falam em virgindade como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
- Sim.
- Sentiste, em algum momento, que ele estava a violar a tua intimidade?
- Não - mas hesitei e ela percebeu e anotou no seu maldito caderno
- Ele foi o teu primeiro?
- Sim. - primeiro, último e único, provavelmente, agora até tenho medo de me envolver com alguém, não vá essa pessoa ser mais um irmão que eu não sei que tenho.
- Como foi que te sentiste depois da tua primeira vez? - pergunta para queijinho
- Senti-me... Desiludida. - Admiti, ela ficou surpreendida
- Conta-me mais sobre essa desilusão.
- Eu pensava que ia ser... mágico... À luz das velas... pensava que ia ter toda aquela magia, o amor de que todos falam... Mas enganei-me...
- O que é que te leva a dizer isso? - eu olhei-a bem nos olhos e respondi
- Eu perdi a minha virgindade no carro, num parque de estacionamento abandonado, é suposto eu me sentir feliz depois disso?
- Estou a ver.… - respondeu ela, focando toda a sua atenção para mim e arrumando os óculos e o seu caderninho.
- De certeza que está a ver? De certeza que entende? Sabe o que é descobrir que o rapaz por quem estava perdidamente apaixonada e com quem perdeu a virgindade é, afinal, seu irmão? Sabe o que isso é? Consegue entender? Eu sou um desastre! Eu sou um pecado! Eu sou uma vergonha! Eu perdi toda a pureza, toda a dignidade que tinha! Eu dei um desgosto do tamanho do mundo aos meus pais! Se o meu pai me tivesse dito que teve um filho e uma mulher antes de casar com a minha mãe, a minha vida não seria o inferno que é neste momento!! COMPREENDE!? EU SIMPLESMENTE NÃO MEREÇO VIVER! Está a desperdiçar o seu tempo comigo. - e dito isto levantei-me e fui-me embora. Fui para casa a pé. A chorar. Mas eu sabia que não ia conseguir deixar de vir a estas sessões porque, surpreendentemente, falar com a psicóloga, faz-me sentir segura. E, pelo menos, ela não me julga.
9. O PRIMEIRO VERÃO
O verão começou e com ele as minhas inseguranças tornaram-se mais fortes. Não gosto de calor, não gosto de usar roupas de verão, não gosto de mostrar o meu corpo, não gosto de ir à praia. Este verão, vou ter de me sacrificar e de fazer isso tudo porque não o quero desiludir. Não quero provocar nenhuma crise na nossa relação. Quero que ele goste de mim, que me elogie, mesmo que eu própria não o faça.
Os meus pais já sabem que "tenho um namorado", sabem que ele se chama Miguel, mas não sabem mais nada. Querem conhecê-lo, mas para mim é muito cedo. Estamos juntos há menos de um ano, não me sinto segura a espalhar a minha relação aos sete ventos, imaginemos que eventualmente, dizemos às pessoas e depois acabamos... seria ridículo, não me quero sacrificar a tanto. Mesmo assim, os meus pais disseram que ele estava convidado a vir à minha festa de aniversário, que será no mês de Setembro, por isso tudo o que tenho de fazer é certificar-me que a nossa relação dura até lá.
Depois do final das aulas, vou passar um fim de semana inteiro com ele à praia. Fico nervosa porque nunca tal tinha acontecido, nunca passei mais do que umas horas na sua companhia. Tenho medo de que alguma coisa aconteça, de que alguma coisa corra mal.
- Amor, não penses negativo. Estás comigo estás com Deus. Vai ser o melhor fim de semana da tua vida! - escolho acreditar no que ele me diz, não tendo a mais pequena ideia daquilo que me espera.
Na sexta feira à tarde, partimos, só os dois, para a casa de praia que os pais dele têm no sul do país. Jantamos umas saladas frescas de atum e adormecemos a ver um filme e a comer pipocas salgadas, embalados pela brisa do mar que irrompe pela porta da varanda mal fechada.
No sábado, passamos o dia na praia a bronzear, fomos almoçar fora e à noite, ele toma banho comigo e fazemos amor sem proteção. Pela primeira vez. Não digo que não foi bom, porque foi, foi incrível, mas fiquei petrificada porque ele ficou dentro de mim.
Depois de nos vestirmos, ele perguntou:
- Amor, estás a tomar a pílula, certo?
- Claro, não te preocupes. - Menti. Com todas palavras. Menti-lhe descaradamente, pela primeira vez e foi tão fácil que até fiquei impressionada comigo própria.
- Ótimo, - disse ele ao beijar-me a testa - não ia gostar nada de te partilhar com uma criancinha, por isso é que não vamos ter filhos tão cedo. - Espera, o quê!? - Até amanhã, dorme bem, querida. - virou-se para o outro lado e adormeceu deixando-me a pensar no que ando a fazer à minha vida.
No dia seguinte, acordei bem cedo e saí para ir à farmácia comprar a pílula do dia seguinte. Vesti o fato de treino para, caso ele estivesse acordado quando eu regressasse, inventar a desculpa de ter ido correr. Felizmente correu tudo bem e tomei o comprimido para prevenir e tranquilizar a minha consciência. Mas aparentemente, o comprimido não cumpriu o seu objetivo e eu tive de arcar com as consequências e tomar uma decisão.
10. ABORTO
- Eva, o que é que sentiste quando percebeste que a pílula do dia seguinte não tinha exercido a sua função? - o tema da sessão de hoje é o meu aborto. Ela perguntou se falar sobre este assunto me afetava e eu disse que não, e é verdade. Eu não queria ser mãe. Ele não queria ser pai. Não havia nada que me fizesse mudar de ideias. Eu não podia ter essa criança de forma nenhuma!
- Fiquei desesperada. - respondi
- E pensaste logo em abortar?
- Sim, não havia outra forma.
- Alguém soube do aborto?
- Sim. Eu era menor de idade na altura, por isso pedi à minha tia para me acompanhar. - A minha tia Fátima foi o meu anjo da guarda. Soube sempre de tudo e não me julgou. Esteve sempre presente.
- E como é que foi o procedimento? Recuperaste bem?
- Sim.
- Tens ideia se o Miguel alguma vez desconfiou?
- Não.
- Como é que achas que as pessoas iam reagir se eventualmente se soubesse que engravidaste do teu irmão? - Esta pergunta pairou sobre mim no exato momento em que surgiu a fatídica revelação. Naquele momento, se eu não tivesse abortado, estaria de cinco meses. Nessa altura já não podia fazer nada, mas felizmente consegui resolver o problema a tempo. A minha família ficou destruída quando soube que o meu namorado era o meu irmão. A minha avó, mãe do meu pai, recusa-se a falar com o meu pai, recusa-se a olhar-me nos olhos... Nem quero imaginar como seria se eu lhe contasse sobre o bebé que não deixei nascer, acho que iria ser a sua morte. - Se fosse hoje, terias contado ao Miguel que na verdade não estavas a tomar a pílula.
- Sim, claro, sem pensar duas vezes.
- Ele acabou dentro de ti mais alguma vez?
- Sim.
- Como registe?
- Eu continuava insegura, porque apesar de ter começado a tomar a pílula e ter feito todos os exames de rotina, continuava assustada porque a minha menstruação não é nada regular e chegou a ficar duas semanas atrasada, então eu ficava em pânico e fazia testes de gravidez. Mas eles davam sempre negativo.
- O medo tomou conta de ti, ficaste insegura e isso pode ter afetado o teu ciclo menstrual. - eu abanei afirmativamente a cabeça, porque é disso mesmo que se trata, o nosso corpo reage a tudo, às vezes pior, outras vezes melhor do que o nosso cérebro.
Um dos meus grandes receios acerca do sexo e dos preliminares é que nós nunca podemos ter cem por cento garantias que vamos ou não engravidar, que vai ou não correr tudo bem. É tudo relativo. É tudo escolha do nosso corpo e depende tudo de muitos fatores. Tal como o amor. Nós não controlamos por quem nos apaixonamos. Eu fui a idiota a quem calhou apaixonar-se pelo próprio irmão.
Eu fui a idiota que sofreu todas as consequências. Eu fui a idiota perdeu a esperança no amor, na felicidade, no futuro.
11. VERÓNICA
A minha irmã era dois anos mais velha que eu e morreu, inesperadamente, dois meses antes de a minha vida se cruzar com a vida do Miguel. A nossa relação era peculiar. Enquanto irmã mais nova eu só queria a atenção dela, só queria fazer as mesmas coisas que ela... resumindo, só queria fazer coisas típicas de irmã mais nova e ela muitas vezes não estava com disposição para me aturar. Mas eu sabia que, lá no fundo eu era a coisa mais importante da sua vida.
A minha irmã tinha o cabelo cheio de madeixas louras, cortado acima dos ombros e ondulado naturalmente. Os seus olhos eram castanhos escuros, quase pretos. Desde que me lembro que ela era completamente apaixonada por animais, mas teve azar porque os nossos pais nunca nos deixaram ter nenhum animal de estimação. De facto, também foi por causa de um animal que ela perdeu a vida tão cedo. Ambicionava ser veterinária e, embora não tivesse acabado o secundário, esforçou-se bastante para ter boas notas, para não desiludir os nossos pais, para conseguir ser melhor do que eu em tudo. Os meus pais adoravam a sua filha mais velha e eu adorava isso, adorava que eles canalizassem a sua atenção para a minha irmã e se esquecessem de exigir tanto de mim. Mas havia uma coisa que eles não aprovavam e que evitavam lembrar-se acerca da Verónica. Ela gostava, assumidamente de raparigas e eu gostava assumidamente de rapazes. Os mais pais tiveram um desgosto porque descobriram o único defeito da sua filha mais velha, mas mesmo assim nunca deixaram de a amar.
A morte da minha irmã deixou um vazio na nossa família porque a era luz, ela era a princesa, a protagonista, a engraçada. Sem ela a nossa casa e a nossa vida ficaram vazias. Eu não me importava de ser a segunda opção, eu não ficava mal quando as conquistas da minha irmã eram mais celebradas do que as minhas, porque eu sabia que eu não era esquecida. A Verónica andava na equitação, tinha uma paixão absurda por cavalos, em particular, e teve o azar de morrer durante uma prova. Foi catapultada de um cavalo em movimento, o seu cavalo favorito. Foi uma questão de segundos, de instantes. Não houve hipótese de reanimação porque ela morreu de ataque cardíaco, tal era a descarga de adrenalina. Não houve tempo para lhe dizer o quanto a amava, o quanto eu estava orgulhosa dela, o quanto ela era importante para mim... Não houve tempo para nada. Mas houve tempo e oportunidade para eu me aproximar da sua namorada, para eu me tornar amiga da minha cunhada, porque os mais pais apagaram completamente a existência da Nicole das memórias da Verónica. Acho que fui uma peça crucial que ajudou a Nicole a fazer o luto da minha irmã, ou pelo menos parte dele, porque assim que conheci o Miguel, afastei-me da Nicole e nunca mais tive oportunidade de me justificar e de lhe pedir desculpas. Espero que ainda vá a tempo.
12. NICOLE
A Nicole foi o primeiro e único grande amor da minha irmã. Nós tínhamos as típicas conversas de irmãs sobre rapazes (e raparigas) que achávamos interessantes e com uma certa beleza. Eu nunca gostei de nenhum rapaz assim mais a sério, não me apagava muito, nunca ao ponto de querer um relacionamento sério, a única coisa que queria naquela altura era dar uns beijinhos e ter alguém que me achasse especial e, de facto aconteceu. Mas a minha irmã era diferente, a minha irmã entregava-se a sério às suas paixões, como se o mundo fosse acabar amanhã. Resultado? Muitas vezes ela ficava desiludida e ficava trancada no quarto durante dias a chorar com o seu coração partido. Os meus pais ficavam desesperados com ela, diziam-lhe que o melhor era arranjar um rapaz porque as raparigas eram mais intensas e ela ia ter desgostos para sempre, mas ela não ouvia e dizia-me sempre que ainda havia de encontrar a sua princesa. E encontrou. Um ano antes dela morrer, apareceu a Nicole e eu nunca vi a minha irmã tão feliz. A Nicole foi o seu grande amor. A sua paixão. O seu motivo para respirar. A pessoa que a incentivava todos os dias e a fazia querer levantar da cama para enfrentar o preconceito e a maldade das pessoas. Porque as pessoas eram más e não sabiam que o amor chega a todos da mesma forma, não apenas aos heterossexuais.
A Nicole era o oposto da minha irmã, mas há quem diga que os opostos se atraem. A Verónica gostava da ousadia da Nicole, gostava das suas madeixas azuis a contrastar no seu cabelo preto, gostava do seu braço esquerdo todo tatuado com desenhos que ela própria fez, gostava das sardas e do piercing brilhante que a Nicole tinha no umbigo. E a Nicole amava a simplicidade da minha irmã, amava que a minha irmã amasse os animais, sonhava os sonhos da minha irmã como se fossem os dela. Elas completavam-se tão bem que eu desejei muitas vezes encontrar alguém que me completasse da mesma forma. Eu pensava que o Miguel era essa pessoa, a minha outra metade, a minha alma gémea, mas enganei-me. A minha irmã encontrou a sua alma gémea e eu acho que neste momento ela está em paz porque partiu feliz. A Nicole ficou destroçada porque ficou sem a presença da minha irmã para sempre. Disse que nunca mais teria forças para amar alguém, mas eu discordo. Tenho a certeza que a Verónica deseja a felicidade da Nicole, e se para isso ela precisar de encontrar outro alguém para amar, tenho a certeza de que, onde quer esteja, a minha irmã vai estar a sorrir e a aplaudir. Porque no fundo, só lhe deseja o melhor.
13.AMIZADE
- Há quanto tempo não tens contacto com a Nicole? - falta meia hora para acabar a sessão, quando a doutora me faz esta pergunta. Fico surpreendida e não digo nada durante um tempo porque estou a tentar perceber quanto tempo passou...
- Um ano... há quase um ano... - é muito tempo... Não acredito que passou tanto tempo...
- Porque é que nunca mais falaste com ela? - congelo
- Não sei... - baixo a cabeça e tento esconder a frustração e as lágrimas que estão à porta
- Tens o número de telemóvel dela? As redes sociais? - abano a cabeça negativamente - Se por acaso alguma vez a voltasses a ver, o que dirias? - o meu coração fica apertado e enche-se de esperança
- Acho que... acho que pedia desculpas...
- Desculpas porquê?
- Desculpas por não ter valorizado a pessoa que a minha irmã mais amava, por não ter lutado para preservar a nossa amizade, a memória da Verónica... Por ter sido egoísta... - já estou a chorar desalmadamente com a cabeça entre os joelhos, já estou a achar que sou uma idiota, uma inútil, que nunca vou conseguir recuperar aquilo que eu era antes da morte da minha irmã, antes da minha história com o Miguel....
- Não precisas de pedir desculpa, Eva... Tu não fizeste nada de errado... - tenho umas mãos a abraçar-me pelas costas, uma voz que eu bem conheço a pedir-me desculpa, o cheiro do perfume da minha irmã a pairar no ar... Mas não tenho a minha irmã... então...
- Nicole? - ela põe-se de cócoras à minha frente e limpa-me as lágrimas e o meu coração quase me cai do peito porque ela está igual e eu estou tão... perdida
- Está tudo bem, Eva... - as lágrimas rebentam outra vez e encharcam a minha cara, mas são lágrimas de felicidade
- Obrigada, Doutora... - olho para a doutora, que está à porta do seu consultório com os olhos a brilhar e que responde:
- Não tens de agradecer, Eva... vai ficar tudo bem... - despede-se com um sorriso doce e sai, fechando a porta, deixando-me a mim e à Nicole a recuperar a nossa amizade.
- Desculpa, desculpa, desculpa... - estou a chorar, estou a olhar para ela com o mesmo cabelo preto, as mesmas madeixas azuis, o mesmo olhar doce que apaixonou a minha irmã... Ela abraça-me e eu sinto a energia da minha irmã entre nós... - Eu sinto-me tão perdida... Eu fui tão estúpida... Eu afastei toda a gente, Nicole... Eu perdi todos os meus amigos... Eu estraguei tudo... - ela não me larga, ela não me deixa ir, mas olha-me nos olhos e diz:
- Tu não me perdeste, Eva. Eu estive sempre aqui. Eu soube de ti o tempo todo. - Como? - Eu sei o que se passou contigo e eu também errei, porque eu queria estar do teu lado, mas eu estava a fazer o meu luto e eu não conseguia aproximar-me de ti porque tu fazias-me lembrar a tua Verónica e isso só me magoava mais, entendes? - Sim... - Mas agora eu estou bem. Agora eu estou aqui para ti e eu não te vou largar, vamos recuperar a nossa amizade, vamos recuperar o tempo perdido, sim? - Sim! - Eu vou ajudar-te a fixar bem. Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui. Não vou a lado nenhum. Nunca mais.
14. VERDADE
Sempre ouvi dizer que a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima, sobretudo quando menos esperamos. E foi isso que aconteceu, a verdade sobre o facto de o Miguel ser meu irmão deu-se muito repentina e inesperadamente e eu percebi logo que algo estava errado pela maneira como o meu pai olhou para o Miguel quando ele entrou por aquela porta. Manteve-se o tempo todo calado, a olhar para a nossa cumplicidade com um profundo ar de incredulidade e pânico. Eu pensava que estava tudo bem, que estava a agir estranhamente porque eu nunca lhe apresentei nenhum namorado e ele podia estar a conter-se para não ser o pai protetor, mas estava enganada. Ele sentiu-se culpado por nos ter escondido a verdade, sentiu-se culpado por destruir o meu primeiro relacionamento com uma verdade tão grave.
Depois de cantarmos os parabéns e de a maioria dos convidados se ter ido embora, o meu pai pediu que todos nos juntássemos na sala porque tinha algo importante para dizer. Ele estava branco como a neve, ao ponto que a minha mãe ficou preocupada porque pensava que ele podia ter comido alguma coisa estragada. A única coisa que o meu pai comeu que estava estragado, foi o seu orgulho.
Uma vez que todos estávamos na sala curiosos para perceber o motivo daquela repentina reunião familiar, eu aproveitei para aconchegar-me nos braços do Miguel, sem suspeitar que iria ser a última vez.
- Bem... - a voz do meu pai estava trémula, hesitante, nunca o tinha visto assim - o motivo pelo qual eu convoquei esta reunião é porque... estamos todos em família. Porque o Miguel faz parte da família. - Ainda sem saber o que estava por vir, eu sorri e disse:
- Obrigada pai, obrigada por aceitares tão bem o Miguel e o considerares como família... - eu estava realmente feliz. O meu pai sorriu, mas o homem estava prestes a cair para o lado de tão branco que estava...
- Querido... sentes-te bem? - perguntou a minha mãe, mais uma vez
- Sim... é só que... O Miguel... É mesmo da família...
- Já sabemos, querido. Fico muito feliz que tenhas aceite o namorado da Eva... - a minha mãe falou outra vez, estávamos todos muito contentes
- Não.... Vocês não estão a perceber... - o meu pai estava a suar como se tivesse acabado de correr a maratona - O Miguel é mesmo da nossa família porque... Porque é fruto do meu primeiro casamento... A mãe dele foi a minha primeira mulher... - Fez-se silêncio e eu congelei, o Miguel congelou e a minha avó caiu literalmente para o lado
- Como é que é? - perguntou a minha mãe - COMO É QUE É? - a minha mãe entrou em pânico e começou a gritar - COMO É QUE TU DEIXASTE QUE A TUA FILHA SE ENVOLVESSE COM O PRÓPRIO IRMÃO!? COMO É QUE FOSTE CAPAZ DE NÃO ME DIZER QUE FOSTE CASADO ANTES DE TE CASARES COMIGO!?
- EU SABIA LÁ QUE ELA SE IA METER COM O MIGUEL!? - agora a culpa é minha!?
Eu levantei-me do meu lugar, olhei para o Miguel e ele olhou para mim como que a pedir desculpa, mas sabendo que o nosso futuro não ia mais existir e eu deixei que o caos se instalasse e subi para o meu quarto e chorei. Eu só queria ter alguém. O Miguel. Ele era a única pessoa que eu queria amar e ter na vida, mas não posso porque o meu pai decidiu não me contar sobre o filho que teve antes de se casar com a minha mãe e agora eu sinto-me nojenta porque cometi o pior dos pecados.
Se eu tivesse sabido da verdade mais cedo, eu teria feito tudo de forma tão diferente... O meu coração estava, apesar de tudo, finalmente feliz... O Miguel fez-me feliz durante muito tempo, embora tivesse as suas características e os seus defeitos... O Miguel era tudo e tão de repente tornou-se em nada. Depois desse dia nunca mais o vi nem falei com ele, mas continuei a sentir o seu cheiro, o seu toque e a sua presença, todos os dias em todo o lado, em todos os recantos do meu corpo. Fiquei, literalmente, no fundo do poço, e se não fosse a psicóloga, eu ainda estaria lá.
15. NOVE MESES
Um bebé precisa de, aproximadamente, nove meses para se desenvolver completamente no útero materno. Eu acho que me posso considerar um bebé, porque demorei nove meses para me reconstruir depois de ter passado pela fase mais difícil da minha vida. Sinceramente, eu não tinha grandes esperanças sobre conseguir voltar a ser quem eu era. Porque eu estava destruída. O meu coração, a minha identidade, tudo estava destruído. Dificilmente conseguiria ser capaz de deixar o passado no lugar dele, de uma vez por todas, mas com a ajuda da Doutora Cristina, foi tudo tão mais fácil. Já não falo no Miguel com mágoa ou com rancor; já não choro quando penso nele. Já não tenho nojo quando penso que ele foi a pessoa com a qual perdi a virgindade; já me consigo olhar ao espelho outra vez. Já não penso no filho que não deixei nascer com uma culpa enorme; agora o que sinto é compaixão por todas as outras raparigas que fizeram o mesmo que eu. Porque nada na vida acontece por acaso, e se eu aprendi algo com o Miguel, é que também mereço ser amada, também sou digna da atenção de alguém. E a morte da minha irmã ensinou-me a aproveitar mais os momentos, a ser genuína; percebi o que tempo que vivemos não interessa para nada se não tivermos deixado uma marca. E a minha irmã deixou.
- Eva, querida. Esta é a nossa última sessão. Nunca pensei dizer isto tão cedo, mas... Tu não és a mesma pessoa que pisou este consultório há nove meses atrás. Tu estás livre, estás tão bonita... fico muito feliz que tenhas conseguido libertar essas amarras! Mas há uma coisa que te queria pedir. E estás no teu direito de aceitar ou não a minha proposta, mas eu não to pedia se não achasse que não estavas pronta... - olho para a doutora sentada na sua poltrona amarela pela última vez e o meu coração fica apertado, mas está tão feliz e tão grato...
- O que é doutora?
- Eu gostava muito que te encontrasses com o Miguel e lhe contasses tudo o que sentiste, tudo o que passaste... sê sincera com ele... pede-lhe desculpa, agradece-lhe.... Diz-lhe o que quiseres ou então não lhe digas nada, mas marca um encontro com ele para pores um ponto final neste capítulo de vez. - Os olhos doces da doutora deixaram-me mais confiantes, disseram-me que era a coisa mais acertada a fazer.
- Vou fazer isso, doutora. Obrigada. - nove meses que acabaram com um abraço sincero.
No dia seguinte, com os dedos a tremer, peguei no telemóvel e liguei ao Miguel.
- Estou? - a voz dele ao atender o telemóvel fez-me tremer
- Miguel? - a minha voz estava a tremer - Sou eu, a Eva. - fez-se silêncio...
- Eva? És mesmo tu? - a voz dele muda de tom e volta a ser a mais tranquilizante que conheci
- Sim... Eu... achas que podíamos combinar um café para... conversar? - não acredito que estou a falar com ele.... Ele hesita antes de responder e nesse momento só me apetece desligar o telemóvel
- Sim... claro que sim... seria bom ver-te novamente... - Ai, o meu coração... - Diz-me onde e quando e eu lá estarei.
- Amanhã, na gelataria da cidade, às quatro da tarde?
- Sim, perfeito. Até amanhã, Eva. - e desligou e eu só fiquei com vontade de me enfiar num buraco bem fundo. Fiquei com medo do amanhã e, por isso, mal dormi.
Não tinha nenhum ataque de ansiedade há meses e, logo naquela manhã, tive dois seguidos e tive de ligar à doutora.
- Eu não consigo... eu vou ligar-lhe, eu vou desmarcar... Eu não consigo... - eu estava desesperada, trancada no quarto a chorar e os meus pais não sabiam o que fazer porque há meses que eu não ficava assim
- Eva... tem calma... Respira... falta muito pouco tempo para a hora que combinaste... Não vais fazer nada, mas eu vou ajudar-te!
- C... Como?
- Vocês combinaram encontrar-se num local público?
- Sim...
- Então fazemos assim... Dizes-me onde é que eu vou lá ter antes das quatro horas e quando ele estiver contigo, eu vou estar lá também, para te ajudar, para te apoiar caso aconteça alguma coisa, sim? - acabou de sair um peso enorme de cima do meu coração
- Sim... obrigada, obrigada doutora, a sério... Nunca lhe vou conseguir retribuir o suficiente...
E assim foi... Às quatro horas em ponto eu estava à espera dele na gelataria, a duas mesas de distância da doutora Cristina... Eu odeio atrasos, já estava a começar a entrar em pânico quando o espanta-espíritos da porta da gelataria tiniu e ele entrou... E o meu coração parou.
Já não me lembrava do quão bonito ele era... do quão alto era... Do quão atraente ele era... Agora que sei que ele é meu irmão as coisas mudam de figura e eu não devia sequer ter estes pensamentos, mas agora nem sequer sinto nada por ele para além de... Empatia. Quando me vê, vem na minha direção e senta-se sem dizer nada. Depois aproxima-se de nós alguém para recolher os nossos pedidos e ele pede, para os dois, gelado de menta e chocolate. O meu favorito... Ele lembrou-se.
- Obrigada, mas... Não era preciso... - digo eu, finalmente, deixando-o surpreendido
- Era preciso sim, Eva. Sei que não é com um gelado que vamos esquecer tudo o que aconteceu, mas é uma forma de me redimir.
- Redimir? Porquê?
- Porque eu sei que também te magoei... - engulo em seco - Não sabes o quão fiquei feliz quando me ligaste... Eu queria ter tido oportunidade para te pedir desculpa, para te dizer que o tempo que estivemos juntos realmente significou alguma coisa para mim... Mas a minha mãe falou com o teu... Com o nosso pai... E ele disse que falou com a tua psicóloga e ela não recomendou que tu me visses... - como é que é?
- Há quanto tempo é que isso foi?
- Há.... Cinco meses, penso...
- Mas sabes... foi a minha psicóloga que me aconselhou a falar contigo hoje... Porque eu estive nove meses na terapia e tive finalmente alta.... - Os olhos dele brilham e dá perfeitamente para perceber que ele ficou surpreendido
- Nove meses!? Com que regularidade?
- Três sessões de uma hora por semana.
- Eva... Eu... Eu lamento... Eu não fazia ideia... foi tudo por minha culpa, desculpa...
- Não lamentes, Miguel... Ninguém fazia ideia de quem eu era... Nem mesmo eu própria... Mas eu agora não quero falar disso, eu queria pedir-te desculpa por todas as vezes que errei contigo quando.... Estávamos juntos... E também agradecer-te, por teres sido o meu primeiro... em tudo.
- Em tudo? Tudo mesmo?
- Tudo mesmo... E também queria perguntar-te se... estás em interessado em... ser o irmão que eu nunca tive.... Porque eu já perdi uma irmã, não quero perder o único que me resta... - ele pega na minha mão e olha para mim um momento antes de responder
- Eu vou fazer de tudo para ser o melhor irmão que conseguir para ti... - estou a chorar, ele limpa-me as lágrimas e eu olho para o gelado que derreteu completamente
- Abraças-me? - pergunto
- Claro. - Ele abraça-me e eu sinto-me tão bem. Acho que nunca estive tão bem. Pelo canto do olho vejo a doutora Cristina a sorrir e a limpar as lágrimas que também lhe encharcam a cara. Lágrimas de orgulho.
16. DANIEL
Conheci o Daniel exatamente um ano e meio depois de ter conhecido o Miguel. A culpa foi da Doutora Cristina, um anjo que pôs outro anjo na minha vida. A minha relação com a doutora é muito mais para além da relação de psicóloga-paciente. É uma relação de amizade, compreensão, apoio, fraternidade... Ela tornou-se parte da minha vida e eu tornei-me parte da vida dela ao ponto de que eu agora sou convidada das suas festas de família. E foi numa dessas festas de família, a festa do seu aniversário, que conheci o seu sobrinho Daniel. Foi ela própria que mo apresentou, que me incentivou a aproximar-me dele, a cuidar dele, porque ele estava num processo de recuperação pela morte da sua namorada. Ele parecia feliz, mas, na realidade, estava destruído e ainda à procura de respostas, de uma tábua de salvação. E eu fui essa tábua de salvação.
- Eva, eu sei que neste momento não estás com cabeça para te envolveres com ninguém e eu não quero, de todo, forçar-te a isso, mas tenho uma pessoa para te apresentar. É o meu sobrinho Daniel. Ele é muito parecido contigo no que toca a personalidade, mas também é muito frágil. A namorada dele morreu há três meses num acidente de carro e ele ainda está a recuperar... - imediatamente levei a mão à boca, com o choque, mas enchi-me de compaixão - Era ele quem estava a conduzir o carro... - o meu coração ficou em pedaços - Foi uma noite de inverno, o chão estava molhado e escorregadio da chuva... foi uma tragédia... Ele sente-se muito culpado e está a sofrer bastante...
- Mas, sendo nessas circunstâncias, podia ter acontecido a qualquer pessoa...! - respondi eu
- Eu sei, Eva. Eu tenho tentado dizer-lhe exatamente isso... Mas ele simplesmente não ouve, não aceita... Por isso tenho esperança de que te possas aproximar dele e reforçar a ideia de que não controlamos absolutamente nada na nossa vida...
- Claro que sim, pode contar comigo, vou fazer o que estiver ao meu alcance! - e fiz
Os dias, as semanas, os meses seguintes... Eu estive lá para o Daniel. Ouvi-o. Abracei-o. Vi-o chorar. Vi-o destruído. Desesperado. Percebi a doutora quando disse que ele estava como eu. E tentei cura-lo com amor. Compreensão. Com tudo o que estava ao meu alcance. E consegui. E encontrei a minha nova razão de viver. Passaram-se quatro meses e a nossa cumplicidade e intimidade era visível aos olhos de toda a gente. Éramos amigos, éramos amantes. Éramos tudo. Eu despertei o Daniel para a vida e ele fez-me perceber o que é realmente viver. O que é realmente amar. O que é não depender de alguém. Porque havia amor entre mim e o Miguel, mas era um tipo de amor tóxico e urgente e o nosso amor é tudo menos isso. É um amor que percorre todas as veias do nosso corpo com uma lentidão deliciosa, sem pressa; o tempo de quem diz que o mundo espera por nós, porque já sofremos demasiado e tão de repente que a única coisa que nos resta é ser, deixar acontecer naturalmente. Com o Daniel eu consigo ser a Eva que era antes da morte da minha irmã, antes do Miguel, antes de tudo... consigo ser eu... A Eva que não é tóxica, que não tem medo de si mesma, que não tem vergonha de si própria. Porque a Eva que passou pela morte da irmã, a Eva que passou por uma relação tóxica e por um aborto... Essa Eva não era eu. Era uma pessoa perdida. Uma pessoa com uma energia pesada. Dura que nem uma rocha. E a Eva que eu sou hoje é leve como uma pena e está perdidamente apaixonada e perdidamente feliz.
17. O MEU FINAL FELIZ
Confesso que nunca pensei ser mãe tão cedo, mas eis que, a poucas semanas de fazer 24 anos, engravidei da Vera. O nome Vera surgiu em homenagem à minha irmã e em homenagem à falecida namorada do Daniel (Verónica + Raquel). Não veio nada a calhar; fiquei insegura e a pensar que esta era a minha segunda gravidez e eu nem sequer tinha um trabalho fixo, não queria que o Daniel ficasse com todas as responsabilidades e fosse a única fonte de rendimento da família. Foi então que ele se lembrou que eu podia ganhar algum dinheiro, fazendo uma coisa que gosto: cozinhar.
Criei uma página de instagram dedicada a take away de comida saudável e fui fazendo algumas entregas. Demorou muito tempo para que as coisas começassem a ter impacto, mas lá consegui e hoje em dia tenho cerca de dez mil seguidores. O Miguel foi uma grande ajuda porque, tenho em conta que estudou marketing e comunicação, ajudou-me a espalhar o meu "negócio online". Dediquei-me ao Eva's Green Kitchen durante os nove meses de gravidez e depois passei o testemunho à minha mãe, que se despediu do seu trabalho e trouxe umas amigas para ajudar no negócio. E eu tive tempo para me dedicar à minha filha e perceber o quão bom é ser mãe.
Certo dia, estava eu a amamentar a Vera, o Daniel chegou à sala, ficou a admirar-nos e disse:
- O papel de mãe fica-te mesmo bem, amor. Acho que temos de ponderar fazer outra coisa bonita como esta... - e tocou no cabelinho louro que brotava na cabeça da nossa filha, olhando para mim com doçura
- Acho que ainda não estou preparada para uma terceira gravidez.... Daqui a uns três anos - só depois de ter falado é que me lembrei do facto de nunca ter falado sobre o meu aborto a... Absolutamente ninguém, para além da minha tia e da doutora Cristina... Como ele virou costas, tinha esperança de que ele não tivesse ouvido
- Terceira? Disseste... Terceira? - os olhos dele olharam para mim preocupados, eu suspirei, estava na hora de lhe contar o resto da história
- Sim... vem cá, há uma coisa que eu não te contei... - ele sentou-se ao meu lado - eu engravidei do Miguel - ele arregalou os olhos e apertou a minha mão - houve uma vez que ele acabou dentro de mim porque pensava que eu estava a tomar a pílula, mas eu não estava...
- Tomaste a pílula do dia seguinte? - perguntou ele, eu assenti
- Sim, mas não fez nada...
- Não disseste nada a ninguém?
- Não... fui à clínica com a minha tia e fiz um aborto, estava com muito medo e com muito pouco tempo de gestação... Mas consegui e não ficou nada... E a minha tia esteve sempre lá... - comecei a chorar - E depois contei à tua tia mais tarde... E agora sabes tu... Mas foi muito complicado... - eu deitei a minha filha no berço, adormeceu depois de uma overdose de leite materno, e o Daniel abraçou-me e eu fiquei aninhada nos seus braços
- Obrigada por me teres contado... Agora temos um anjo no céu e outro na terra, a nossa Vera.... - fez-me cafuné no cabelo - E acho que está na altura de encerrares este assunto de vez e contares ao Miguel que tens um filho dele... - NÃO!
- Não... Por favor, não quero... Não me faças isso... está tudo tão bem agora... - ele notou que eu fiquei agitada, por isso tranquilizou - me...
- Pronto... está tudo bem... Vamos ficar por aqui, vamos deixar este assunto aqui... está bem assim?
- Sim, por favor...
E ficámos os dois abraçados até a Vera chorar e interromper o nosso momento. Mas não a julgo, é apenas um bebé de sete meses a pedir colo e amor.
Uns anos depois, tentámos dar um irmão ou uma irmã à Vera, mas sem sucesso... percebi que sofria de endometriose e que, também devido ao aborto que fiz quando era mais nova, era complicado dar mais um irmão à Vera... Mas eu não sou me importei, porque com mais um bebé ou sem mais um bebé, eu já era feliz ao lado do Daniel e da Vera. Porque percebi que sem ter passado por tudo aquilo que passei na minha adolescência, eu não me teria encontrado nem teria encontrado o amor e o verdadeiro sentido da minha vida.
FIM
1. EU
Depois de abrir a porta e entrar em silêncio com a aprovação de quem está lá dentro, sento-me. À minha frente tenho a pessoa que, dizem os meus pais, me vai dar respostas e me vai ajudar a ultrapassar os obstáculos interiores. Espero bem que sim, caso contrário eles vão pagar uma mensalidade absurda por nada.
- Bom dia. Obrigada por teres vindo. - diz ela, calmamente, a investigar-me atentamente.
- Só estou aqui porque os meus pais me pediram. Dizem que me vai fazer bem. - respondo.
- E tu? Achas que te vai fazer bem?
- Não sei. Até agora acho que é uma perda de tempo. - A minha afirmação provoca-lhe desconforto e consigo sentir que ela já percebeu que sou só mais uma para lhe preencher o leque de "casos perdidos".
-Bem... Quando tenho um paciente novo, eu começo sempre a nossa jornada fazendo-lhe uma pergunta. Estás pronta para responder? - não consigo deixar de franzir o sobrolho
- Acho que sim. Mas ainda não perguntou nada. - Ela põe-se confortável e vai direta ao assunto.
- Quem és tu? - fico calada
- Sou a Eva. - Esta foi claramente a pior resposta de sempre
- Eu sei que o teu nome é Eva. Mas não sei quem é a Eva. - As lágrimas ameaçam cair e eu sinto-me ridícula porque não sei o que está a acontecer aqui
- Eu... Eu também não sei. - Ela age como se já fosse hábito ouvir essa resposta
- Okay, vamos por partes. Diz-me três coisas das quais tu gostes. - Fácil
- Gosto de comer. Gosto de desenhar. Gosto de chuva. - Ela abana afirmativamente a cabeça e tira apontamentos
- Muito bem. Agora diz-me três coisas das quais tu não gostes. - Fácil também
- Não gosto da escola. Não gosto de conviver com muitas pessoas. Não gosto de cães. - Continua a tirar apontamentos
- Estou a ver... Achas que tens alguma qualidade? - esta pergunta faz-me pensar
- Hm... Acho que tenho uma letra bonita... E sou paciente, tenho mais paciência do que devia.
- Muito bem. De um a cinco, quantas pessoas achas que moram em ti? - espera, o quê!?
- Como assim?
- Estás aqui há dez minutos e já sei que tu tens mais do que uma pessoa dentro de ti. E essas duas pessoas, não gostam uma da outra. Para que elas se tornem uma e tu te consigas encontrar, precisamos que elas se deem bem.
- Isto parece-me uma estupidez...
- Oh, mas não é nada uma estupidez... tenho outra pergunta para ti... Já gostaste de alguém? - estremeço
- Não. - a minha voz sai fria como gelo ao ponto de a assustar, mas não de a convencer
- Qual era o nome dele? - estou com tanta raiva dela que neste momento era capaz de lhe dar um tiro
- Miguel - digo entredentes
- Como correram as coisas com o Miguel? Estavas apaixonada? - não consigo, não consigo, não consigo viver isto outra vez, não quero recordar aquilo que me destruiu, não quero recordar as promessas que ele fez, as vezes que ele me prometeu tudo e nunca me deu nada. Não posso. Não quero.
- Podemos falar noutra coisa, por favor? - já não vejo nada por causa das malditas lágrimas que inundam a minha cara, mas percebo que ela está a olhar para mim, a examinar-me. Mesmo sem falar, eu sei que ela não vai desistir e vai insistir exatamente neste ponto. O assunto mais sensível da minha vida.
- Não. Nós temos de falar nisto Eva. Sabes que sim. - Olha para o relógio - a nossa sessão está a acabar, mas na próxima vamos escavar um pouco mais fundo e quero que me fales do Miguel... - não aguento. Não a deixo acabar e saio porta fora a gritar:
- Eu quero que você vá à merda!
Ela quer ajudar-me, mas ao falar do maior erro da minha vida, só está a ajudar a piorar o meu estado.
2. MIGUEL
Foi há dois anos, na maldita discoteca da minha cidade, que lhe pus os olhos em cima pela primeira vez. Era só mais um rapaz. Um rapaz como todos os outros. Um rapaz vestido com um hoodie e umas calças de fato treino pretas. Olhou para mim de esguelha e piscou-me o olho. À primeira vista meteu-me nojo e revirei os olhos, mas quando ele não estava a olhar para mim eu mirei-o e percebi que ele até era engraçado. E bastante atraente. Atraente demais.
Fui para casa a pé e, no caminho, alguém puxou o meu braço e me levou para uma rua escura. Fiquei em pânico, mas ele pôs um dedo sobre os meus lábios e disse:
- Xiu... Eu não te vou fazer mal... É só que tu estavas a deixar-me louco... - louca fiquei eu com os seus olhos azuis, que pareciam os olhos de um gato e com a sua voz hipnotizante - Como é que te chamas?
- E... Eva... - sussurrei com a voz a tremer, o coração a bater descontroladamente e cheia de medo
- Que nome lindo... Sabes, Eva... Eu gostava muito de fazer coisas contigo... gostava muito de te ver outra vez amanhã... E no dia seguinte... Todos os dias... - foi-se embora, deixou-me atordoada com os lábios queimados pela sua boca que invadiu fortemente a minha. Fiquei a pensar em todas as coisas que ele disse que queria fazer comigo, perguntando-me como é que era possível um rapaz como ele querer alguma coisa com uma rapariga como eu.
Nessa noite não dormi. Na manhã seguinte passei na rua onde ele me beijou pela primeira vez e ele estava lá. Recuei, quis ir embora, mas os meus pés simplesmente não saíram do lugar. Fiquei ali, a olhar para ele, que estava sentado no chão serenamente a dar festas a um gato vadio.
- Ainda não me disseste o teu nome. - Fiquei sem dizer nada durante uns bons minutos, apenas a contemplar aquele cenário. Depois quebrei o gelo, assustando-o e afugentando o pobre gato preto a quem ele estava a dar mimos.
- Miguel. - disse ele, levantando-se e sacudindo o pó das calças.
- Miguel. Não gosto do nome. - Ele riu-se - O que é que tu queres de mim, Miguel?
- Quero amar-te. - Como é que é!?
- Queres amar-me? Mas nem me conheces! E além disso, eu não quero nada com ninguém. Não estou disponível. Nem sei como fui capaz de te deixar beijar-me ontem... - dei meia volta e estava com intenções de me ir embora quando ele me puxou, me beijou novamente e pôs a mão dentro das minhas calças. Eu não estava à espera daquilo. Nunca ninguém me tinha feito aquilo. Nunca ninguém me tinha tocado daquele jeito. Tentei acalmar-me e disfrutar, mas o meu corpo sentia repulsa e então comecei a gritar e a contorcer-me.
- LARGA-ME! MAS O QUE É QUE PENSAS QUE ESTÁS A FAZER!? - ele largou-me e começou a dar murros na parede atrás de nós, desesperadamente.
- Desculpa, desculpa, Eva... é só que... A soube há dias que a minha irmã morreu e... Eu estou carente... Eu preciso de alguém... Quando eu te vi o meu instinto disse-me que tu eras a pessoa certa... Que me podias ajudar... Que eras a pessoa certa para eu amar e deixar de ter esta dor tão grande... - as palavras dele partiram o meu coração porque eu passei exatamente pelo mesmo. Deixei-o encostar a sua cabeça ao meu peito, deixei-o chorar, deixei-o beijar-me e fomos ver o pôr do sol. Combinámos encontrar-nos todos os dias no mesmo beco até sentirmos (ou não) o amor. Azar o meu, que senti mesmo sabendo que da parte dele o sentimento podia não surgir. Mesmo sabendo que não tinha o seu amor como garantia.
3. FALAR DELE
Chegou o dia da segunda sessão e eu fui literalmente arrastada pelos meus pais para dentro do consultório. Não queria ir. Não podia ir. Eu sabia que ela me ia obrigar a falar sobre ele e eu simplesmente não estava pronta. Eu simplesmente não aguentava lembrar-me dele, daquilo que ele me fez passar. Da iludida que fui. Do seu suposto amor.
Depois de me sentar, respirei fundo e olhei para ela da forma mais suplicante que pude.
- Olá Eva.
- Olá Doutora.
- Estás pronta?
- Não.
- Mas sabes o que vai acontecer hoje, não sabes?
- Sei.
- Então, por onde queres começar? - encolhi os ombros - Talvez me possas dizer como é que ele entrou na tua vida?
- Ele entrou da mesma forma que saiu. - digo - Com um simples olhar.
- O que é que esse primeiro olhar provocou em ti?
- Esperança. - Fico surpreendida com a rapidez da minha resposta e com o facto de não estar, de todo, tão perturbada como esperava.
- Esperança em quê?
- Numa oportunidade. No amor.
- Amava-lo? - esta pergunta fez-me pensar
- Sim. Mas não da forma que ele me amava.
- Como assim?
- O nosso amor simplesmente não era compatível. A fome dele era insaciável. Ele queria tudo à bruta, tudo para ontem, tudo intenso... E eu... - estava a ficar sem ar - Eu não sabia o que era amar alguém... Eu queria ir com calma... Eu não queria tanto, não queria tão de repente... - um ardor no peito, as lágrimas que caíam ferozmente, as memórias que nunca estiveram tão vivas
- Quando é que percebeste que isso não era saudável? - olhei para ela nos olhos, durante uns momentos, antes de responder
- Quando me esqueci de mim.
- Mas ele fazia-te feliz?
- Fez-me feliz durante metade do tempo que estivemos juntos.
- As pessoas sabiam que vocês estava, juntos? - ela está a perguntar-me isto, mas na verdade já sabe a resposta
- Não.
- Tu querias que as pessoas soubessem?
- Queria.
- As coisas teriam sido diferentes se as pessoas soubessem desde o princípio?
- Sim. Teriam sido piores. - okay... Isto vai doer... Eu sei o que vem a seguir e é exatamente por isso que eu não queria falar sobre ELE
- Porquê? - a sua expressão sobre mim, diz-me que ela precisa de ouvir a verdade sair da minha boca, mas eu não quero dizer a verdade, por isso fecho os olhos, dobro-me sobre os joelhos e choro - Eva... sabes que tem de ser... Tens de ouvir a verdade sair da tua própria boca, não podes agir como se nada fosse. - Desculpa!!??
- AGIR COMO SE NADA FOSSE? DESCULPE!? A SENHORA ACHA QUE EU CONSIGO AGIR COMO SE NADA FOSSE DEPOIS DE SABER QUE TIVE UMA RELAÇÃO ABUSIVA COM UM RAPAZ QUE ERA O MEU PRÓPRIO IRMÃO!? - gritei, com todas as minhas forças. Ela ouviu com a atitude mais calma do mundo, como se já estivesse treinada para não reagir perante situações assim. E eu saí porta fora. Não conseguia mais estar ali.
4. O PRIMEIRO MÊS
Oficialmente não éramos namorados. Não houve um pedido. Não houve declarações, mas havia amor, disso eu tinha a certeza. Precisamente um mês depois daquele primeiro olhar na discoteca, eu perdi aquilo que, dizia a minha avó, era mais valioso em mim. A minha pureza. A folha de papel que era branca e lisa, ficou amarrotada. Não foi nada como eu esperei. Não foi num quarto de hotel cheio de pétalas de rosas e iluminado à luz das velas. Não foi no banho. Não foi numa cama. Não foi na parede das traseiras de um bar imundo. Foi num carro. Num parque de estacionamento abandonado.
- Vem para o meu colo. - disse ele, depois de estacionar o carro e sentir que estávamos seguros naquele lugar, mas eu hesitei. - Vem para o meu colo, Eva. Quero-te. Agora. - a voz dele era urgente, apaixonada, mas fria.
- Agora? - eu não sabia o que fazer, o que pensar, não sabia se lhe havia de dizer que não estava pronta, não sabia se ele sabia que eu ainda era virgem, não sabia nada. Mas fiz o que ele pediu.
Ele sorriu e, de início, foi muito querido para mim. Senti-me uma princesa no meio dos seus beijos, mas depois algo mudou. Ele desapertou as calças com pressa. Meteu a mão por baixo do meu vestido com brutidade e com urgência. Entrou dentro de mim de uma forma horrível. Magoou-me. Mas eu não conseguia falar. Não consiga olhá-lo nos olhos. Não senti magia nenhuma. Sentia-me a própria espectadora do momento que devia ser um dos mais especiais da minha vida. Fiquei aliviada quando ele acabou e quando percebi que não ficou nada dentro de mim, porque de tanto lutar, o motor não ficou a trabalhar como deve ser.
- Leva-me para casa. - pedi-lhe, mas ele não ouviu porque estava numa luta interior. Com as mãos a segurar a cabeça, a culpar-se pela vulnerabilidade da sua masculinidade.
Saí do carro sem me despedir e fui para casa. Não estava ninguém em casa e isso deixou-me mais tranquila. Pela primeira vez em dois meses, entrei no quarto da Verónica, a minha falecida irmã. Peguei numa t-shirt e, depois de perceber que o seu cheiro ainda estava presente, levei-a para o meu quarto e fechei a porta. Tomei um banho, esfreguei-me o mais que pude até sentir que a minha pele não estava impregnada com o cheiro e toque dele. Vesti um par de cuecas, enfiei a camisola da minha irmã e tomei uma mão cheia dos primeiros comprimidos que encontrei na farmácia da casa de banho. Eu só queria paz.
5. AMIGOS
Terceira sessão. Entro no consultório, mais uma vez, arrastada pelos meus pais e com medo de que continuemos a falar dele. Depois de bater e de ter autorização, entro e encontro a Doutora sentada na mesma poltrona amarela de sempre, a escrevinhar algo no seu caderno de apontamentos.
- Olá Eva. Senta-te. - Eu faço o que ela me diz - Como estás? - encolho os ombros e ela olha-me por cima dos seus grandes óculos azuis graduados e abana a cabeça - Muito bem. Hoje não vamos falar sobre o Miguel. - Eu respiro de alívio - Vamos falar sobre as tuas amizades.
- Amizades? - fico confusa
- Sim. Quero que me fales dos teus amigos. - Não consigo evitar e começo a rir-me - Qual é a graça? - pergunta ela
- Não tenho amigos. - respondo e deixo-a perplexa
- Não tens amigos?
- Não.
- Não acredito que uma rapariga de dezanove anos como tu não tenha amigos. - Engulo em seco
- Eu tinha amigos. Mas afastei-me de todos eles quando comecei a dedicar-me por inteiro à minha relação com o Miguel.
- E porquê?
- Porque eles não iam compreender. Não me iam apoiar. Iam pedir-me para me afastar dele...
- E tu não os ias ouvir mesmo sabendo que a tua relação com o Miguel era tóxica? - fiquei sem palavras
- Sim.
- O Miguel era dependente de ti e tu eras dependente dele. Tinha-te feito bem teres alguém com quem desabafar sobre as tuas inseguranças...
- Eu não precisava de ninguém. Só precisava dele. Ele era o meu único amigo... - respondi-lhe eu, num fio de voz. A Doutora ficou a observar-me durante algum tempo, até se levantar e ficar de pé, em frente à janela, a olhar lá para fora.
- Eva, tu falavas com ele sobre o teu dia a dia? Sobre os teus problemas? Disseste-lhe que também tinhas uma irmã que morreu? - eu sentia cada pergunta que ela fazia como uma facada bem no fundo do meu coração.
- Não... A única coisa que ele sabia era que a minha irmã também se chamava Verónica... - as lágrimas começaram a cair e eu simplesmente não conseguia evitar - ele achou isso uma feliz coincidência
- Alguma vez desconfiaste que o teu pai tinha tido outra mulher antes de ter casado com a tua mãe? Falavam disso em casa?
- Não... - era verdade... Eu não sabia... A minha irmã não sabia... O Miguel não sabia... - isto estava a tornar-se insuportável
- E os amigos dele? - perguntou ela, já sentada na poltrona amarela a escrever alguns tópicos no seu caderno. Aquela era a pergunta que eu mais receava. A pergunta que mais me doía. - Os amigos dele tratavam-te bem? Conheciam-te? - abanei afirmativamente a cabeça e fechei os olhos com força, tentando que as memórias não viessem à superfície de novo. - Alguma vez algum amigo do Miguel teve alguma atitude menos correta contigo? - não, não, não, não quero recordar, não quero falar, não quero lembrar-me dos rapazes nojentos que ele tinha como amigos, não me quero lembrar do Alexandre... Não me quero lembrar do que ele me fez...
6. ALEXANDRE
O Alexandre entrou de rompante na minha vida dois meses depois de eu ter conhecido o Miguel. O Miguel apresentou-mo na discoteca que serviu de pano de fundo à intensidade da nossa relação e eu percebi logo que estava condenada.
- Como é que é mano? - O Miguel cumprimentou o Alex ao mesmo tempo que me empurrava em direção à mesa onde o seu amigo estava sentado. Eles trocaram um aperto de mão e depois o Miguel apresentou-me ao seu amigo - Alex, esta é a Eva, a minha miúda. - Eu sou a sua miúda!
- Vejam só! E que bonita que ela é! Saiu-te a sorte grande, meu! - senti-o examinar o meu corpo de cima a baixo. Senti a intensidade dos seus olhos verdes pousar sobre a minha minissaia preta e subir até ao meu decote. Senti um arrepio, senti nojo, senti uma enorme vontade de desaparecer.
- Querida, podes ficar aqui com o Alexandre enquanto eu vou pedir bebidas para nós? - NÃO! NÃO, NÃO ME FAÇAS ISSO, POR FAVOR!
- Claro. - Acabei por responder - Pede um mojito para mim, por favor. - Ele deu-me breve beijo e foi em direção ao bar. E eu quando dei por mim estava numa mesa redonda, minúscula, sentada ao lado do Alexandre.
- Então... Eva... Parabéns... conseguiste conquistar aqui o coração do Miguelito... Mas sabes? - ele começou a aproximar a sua boca da minha orelha e a sua mão descer para o meu colo. Tentei impedir, mas ele simplesmente não deixou, ele simplesmente me magoou ainda mais - Isto foi tudo uma aposta... Eu estava naquele bar, naquela noite... Nós apostámos que tu ias ser fácil... Que tu ias cair que nem um patinho... - as palavras dele eram geladas, insuportáveis... A mão dele estava cada vez mais próxima da minha intimidade e eu só queria fugir... Mas eu enchi-me de coragem e respondi-lhe à letra, antes de me levantar e ir embora, não aguentava mais:
- Sabes Alexandre... Eu posso ser fácil, mas é muito difícil arranjar raparigas como eu... - ele começou a rir-se - Porque a maior parte das raparigas já está habituada a lidar com rapazes porcos como tu, que só se sentem bem a destruir a vida dos outros e que não têm onde cair mortos. Mas eu espero que tu caias num poço bem fundo e morras depressa. - Reparei que ele. Ficou perplexo e que o Miguel se estava a aproximar com as bebidas, mas mesmo assim cortei caminho entre as pessoas, encontrei a saída e corri o mais depressa que pude em direção à minha casa. Mas durante muito tempo ouvi o Miguel aos gritos, a pedir desculpa pelas atitudes do "amigo", a pedir-me para voltar. Mas eu não voltei. Nunca mais voltei a meter os pés naquela discoteca.
7. AS DESCULPAS
Não dirigi a palavra ao Miguel durante uma semana. E durante essa semana, todos os dias, recebia uma mensagem sua com um pedido de desculpas. A verdade é que, por muito que ele tente, nunca conseguirá o meu perdão pelas atitudes deploráveis do seu amigo. E pelas atitudes deploráveis que ele tem comigo sem dar conta.
Mas, apesar de tudo, o meu coração estúpido continua a amá-lo. Mas preciso de fazer algo por mim mesma, porque me sinto na lama e estar ao lado dele, embora me deixe bem, é tudo o que eu não quero.
Ao nono dia, estava eu a ir para casa depois de sair da escola, fui puxada por alguém totalmente vestido de preto, que me encostou à parede de um beco sem saída. O mesmo beco. A mesma pessoa. Ele.
- Larga-me! LARGA-ME! - ele tapou-me a boca com a mão e olhou para os meus olhos com uma expressão suplicante
- Eva, deixa-me falar contigo. Por favor. Só cinco minutos. Depois deixo-te ir. - a voz dele implorava por perdão, implorava por mim. Eu suspirei e abanei a cabeça afirmativamente. Só. Cinco. Minutos. - Por favor. Desculpa-me. Desculpa o Alexandre. Ele não foi bom para ti e sei que eu também não tenho sido grande coisa. Tenho sido uma merda contigo e tu não mereces, porque não fizeste nada de mal. O problema é comigo. Eu quero ter algo bonito e sério contigo, quero um compromisso... quero que me ames, que não tenhas medo... Mas não sei como... - ele estava à minha frente, a chorar que nem um bebé e eu não sabia como reagir... Eu soltei-me das minhas amarras, respirei fundo e voltei para os seus braços.
- Tem calma... vamos ficar bem... vai ficar tudo bem... vamos amar-nos... - tentei tranquilizar a sua alma cheia de medo, deixei que ele repousasse a sua cabeça no meu peito. E ficámos assim, a absorver o cheiro um do outro. Unidos de novo pelo perdão.
8. VIRGEM
Último dia da semana era sinónimo de sessão com a psicóloga. Tornou-se uma rotina que eu, surpreendentemente, ia começando a aceitar sem reclamar. Habituei-me à ideia de ver aquela mulher estranha, de cinquenta anos, todas as semanas sentada na mesma poltrona amarela. Gostava de saber qual é a sensação de passar os dias a ouvir os problemas das pessoas e aconselha-las. Será que as psicólogas também andam na psicóloga? Como será que fazem para não se deixarem afetar com o sofrimento e as histórias dos outros? Tenho tantas perguntas... Talvez um dia ganhe coragem para lhas colocar...
Bato à porta, entro e sento-me à sua frente, na mesma cadeira de sempre. Amarela a combinar. Ela tem os óculos equilibrados na ponta do nariz e olha-me com um sorriso no rosto, ao mesmo tempo que fecha o caderno onde escrevinhava.
- Olá Eva. Como estás hoje?
- Estou bem, acho.
- Como estão a correr as aulas? - vamos ignorar o facto de eu ter chumbado no décimo primeiro ano por causa da deceção e do choque que foi descobrir que ele era meu irmão.
- Estão a correr bem.
- Ótimo. Hoje queria falar contigo sobre uma coisa diferente, espero que não me leves a mal. Se te sentires desconfortável com o rumo da conversa, diz que mudamos de assunto.
- Okay...
- Bem, achas que me podes falar um bocadinho de como foi a tua relação com o Miguel, a nível sexual? - O QUÊ!? SÓ PODE ESTAR A BRINCAR! Eu engoli em seco... estava a começar a ficar com calafrios, com uma pressão no final da minha zona abdominal...
- Como assim? Está a perguntar se nós fazíamos sexo?
- Exatamente. - Ela deve querer que eu fale sobre a minha vida íntima, assim sem mais nem menos - Ouve, Eva, sei que não te sentes confortável a falar sobre isso. Sei que sou uma estranha para ti. Mas era fundamental que conseguíssemos explorar este ponto e, eventualmente, perceber se os teus traumas estão associados ao facto de teres tido relações sexuais com o teu irmão. - Eu estava prestes a cair para o lado, mas fiz os possíveis para me manter desperta
- Okay... Acho que podemos tentar...
- Ótimo. Então diz-me, eras virgem quando o conheceste? - as pessoas falam em virgindade como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
- Sim.
- Sentiste, em algum momento, que ele estava a violar a tua intimidade?
- Não - mas hesitei e ela percebeu e anotou no seu maldito caderno
- Ele foi o teu primeiro?
- Sim. - primeiro, último e único, provavelmente, agora até tenho medo de me envolver com alguém, não vá essa pessoa ser mais um irmão que eu não sei que tenho.
- Como foi que te sentiste depois da tua primeira vez? - pergunta para queijinho
- Senti-me... Desiludida. - Admiti, ela ficou surpreendida
- Conta-me mais sobre essa desilusão.
- Eu pensava que ia ser... mágico... À luz das velas... pensava que ia ter toda aquela magia, o amor de que todos falam... Mas enganei-me...
- O que é que te leva a dizer isso? - eu olhei-a bem nos olhos e respondi
- Eu perdi a minha virgindade no carro, num parque de estacionamento abandonado, é suposto eu me sentir feliz depois disso?
- Estou a ver.… - respondeu ela, focando toda a sua atenção para mim e arrumando os óculos e o seu caderninho.
- De certeza que está a ver? De certeza que entende? Sabe o que é descobrir que o rapaz por quem estava perdidamente apaixonada e com quem perdeu a virgindade é, afinal, seu irmão? Sabe o que isso é? Consegue entender? Eu sou um desastre! Eu sou um pecado! Eu sou uma vergonha! Eu perdi toda a pureza, toda a dignidade que tinha! Eu dei um desgosto do tamanho do mundo aos meus pais! Se o meu pai me tivesse dito que teve um filho e uma mulher antes de casar com a minha mãe, a minha vida não seria o inferno que é neste momento!! COMPREENDE!? EU SIMPLESMENTE NÃO MEREÇO VIVER! Está a desperdiçar o seu tempo comigo. - e dito isto levantei-me e fui-me embora. Fui para casa a pé. A chorar. Mas eu sabia que não ia conseguir deixar de vir a estas sessões porque, surpreendentemente, falar com a psicóloga, faz-me sentir segura. E, pelo menos, ela não me julga.
9. O PRIMEIRO VERÃO
O verão começou e com ele as minhas inseguranças tornaram-se mais fortes. Não gosto de calor, não gosto de usar roupas de verão, não gosto de mostrar o meu corpo, não gosto de ir à praia. Este verão, vou ter de me sacrificar e de fazer isso tudo porque não o quero desiludir. Não quero provocar nenhuma crise na nossa relação. Quero que ele goste de mim, que me elogie, mesmo que eu própria não o faça.
Os meus pais já sabem que "tenho um namorado", sabem que ele se chama Miguel, mas não sabem mais nada. Querem conhecê-lo, mas para mim é muito cedo. Estamos juntos há menos de um ano, não me sinto segura a espalhar a minha relação aos sete ventos, imaginemos que eventualmente, dizemos às pessoas e depois acabamos... seria ridículo, não me quero sacrificar a tanto. Mesmo assim, os meus pais disseram que ele estava convidado a vir à minha festa de aniversário, que será no mês de Setembro, por isso tudo o que tenho de fazer é certificar-me que a nossa relação dura até lá.
Depois do final das aulas, vou passar um fim de semana inteiro com ele à praia. Fico nervosa porque nunca tal tinha acontecido, nunca passei mais do que umas horas na sua companhia. Tenho medo de que alguma coisa aconteça, de que alguma coisa corra mal.
- Amor, não penses negativo. Estás comigo estás com Deus. Vai ser o melhor fim de semana da tua vida! - escolho acreditar no que ele me diz, não tendo a mais pequena ideia daquilo que me espera.
Na sexta feira à tarde, partimos, só os dois, para a casa de praia que os pais dele têm no sul do país. Jantamos umas saladas frescas de atum e adormecemos a ver um filme e a comer pipocas salgadas, embalados pela brisa do mar que irrompe pela porta da varanda mal fechada.
No sábado, passamos o dia na praia a bronzear, fomos almoçar fora e à noite, ele toma banho comigo e fazemos amor sem proteção. Pela primeira vez. Não digo que não foi bom, porque foi, foi incrível, mas fiquei petrificada porque ele ficou dentro de mim.
Depois de nos vestirmos, ele perguntou:
- Amor, estás a tomar a pílula, certo?
- Claro, não te preocupes. - Menti. Com todas palavras. Menti-lhe descaradamente, pela primeira vez e foi tão fácil que até fiquei impressionada comigo própria.
- Ótimo, - disse ele ao beijar-me a testa - não ia gostar nada de te partilhar com uma criancinha, por isso é que não vamos ter filhos tão cedo. - Espera, o quê!? - Até amanhã, dorme bem, querida. - virou-se para o outro lado e adormeceu deixando-me a pensar no que ando a fazer à minha vida.
No dia seguinte, acordei bem cedo e saí para ir à farmácia comprar a pílula do dia seguinte. Vesti o fato de treino para, caso ele estivesse acordado quando eu regressasse, inventar a desculpa de ter ido correr. Felizmente correu tudo bem e tomei o comprimido para prevenir e tranquilizar a minha consciência. Mas aparentemente, o comprimido não cumpriu o seu objetivo e eu tive de arcar com as consequências e tomar uma decisão.
10. ABORTO
- Eva, o que é que sentiste quando percebeste que a pílula do dia seguinte não tinha exercido a sua função? - o tema da sessão de hoje é o meu aborto. Ela perguntou se falar sobre este assunto me afetava e eu disse que não, e é verdade. Eu não queria ser mãe. Ele não queria ser pai. Não havia nada que me fizesse mudar de ideias. Eu não podia ter essa criança de forma nenhuma!
- Fiquei desesperada. - respondi
- E pensaste logo em abortar?
- Sim, não havia outra forma.
- Alguém soube do aborto?
- Sim. Eu era menor de idade na altura, por isso pedi à minha tia para me acompanhar. - A minha tia Fátima foi o meu anjo da guarda. Soube sempre de tudo e não me julgou. Esteve sempre presente.
- E como é que foi o procedimento? Recuperaste bem?
- Sim.
- Tens ideia se o Miguel alguma vez desconfiou?
- Não.
- Como é que achas que as pessoas iam reagir se eventualmente se soubesse que engravidaste do teu irmão? - Esta pergunta pairou sobre mim no exato momento em que surgiu a fatídica revelação. Naquele momento, se eu não tivesse abortado, estaria de cinco meses. Nessa altura já não podia fazer nada, mas felizmente consegui resolver o problema a tempo. A minha família ficou destruída quando soube que o meu namorado era o meu irmão. A minha avó, mãe do meu pai, recusa-se a falar com o meu pai, recusa-se a olhar-me nos olhos... Nem quero imaginar como seria se eu lhe contasse sobre o bebé que não deixei nascer, acho que iria ser a sua morte. - Se fosse hoje, terias contado ao Miguel que na verdade não estavas a tomar a pílula.
- Sim, claro, sem pensar duas vezes.
- Ele acabou dentro de ti mais alguma vez?
- Sim.
- Como registe?
- Eu continuava insegura, porque apesar de ter começado a tomar a pílula e ter feito todos os exames de rotina, continuava assustada porque a minha menstruação não é nada regular e chegou a ficar duas semanas atrasada, então eu ficava em pânico e fazia testes de gravidez. Mas eles davam sempre negativo.
- O medo tomou conta de ti, ficaste insegura e isso pode ter afetado o teu ciclo menstrual. - eu abanei afirmativamente a cabeça, porque é disso mesmo que se trata, o nosso corpo reage a tudo, às vezes pior, outras vezes melhor do que o nosso cérebro.
Um dos meus grandes receios acerca do sexo e dos preliminares é que nós nunca podemos ter cem por cento garantias que vamos ou não engravidar, que vai ou não correr tudo bem. É tudo relativo. É tudo escolha do nosso corpo e depende tudo de muitos fatores. Tal como o amor. Nós não controlamos por quem nos apaixonamos. Eu fui a idiota a quem calhou apaixonar-se pelo próprio irmão.
Eu fui a idiota que sofreu todas as consequências. Eu fui a idiota perdeu a esperança no amor, na felicidade, no futuro.
11. VERÓNICA
A minha irmã era dois anos mais velha que eu e morreu, inesperadamente, dois meses antes de a minha vida se cruzar com a vida do Miguel. A nossa relação era peculiar. Enquanto irmã mais nova eu só queria a atenção dela, só queria fazer as mesmas coisas que ela... resumindo, só queria fazer coisas típicas de irmã mais nova e ela muitas vezes não estava com disposição para me aturar. Mas eu sabia que, lá no fundo eu era a coisa mais importante da sua vida.
A minha irmã tinha o cabelo cheio de madeixas louras, cortado acima dos ombros e ondulado naturalmente. Os seus olhos eram castanhos escuros, quase pretos. Desde que me lembro que ela era completamente apaixonada por animais, mas teve azar porque os nossos pais nunca nos deixaram ter nenhum animal de estimação. De facto, também foi por causa de um animal que ela perdeu a vida tão cedo. Ambicionava ser veterinária e, embora não tivesse acabado o secundário, esforçou-se bastante para ter boas notas, para não desiludir os nossos pais, para conseguir ser melhor do que eu em tudo. Os meus pais adoravam a sua filha mais velha e eu adorava isso, adorava que eles canalizassem a sua atenção para a minha irmã e se esquecessem de exigir tanto de mim. Mas havia uma coisa que eles não aprovavam e que evitavam lembrar-se acerca da Verónica. Ela gostava, assumidamente de raparigas e eu gostava assumidamente de rapazes. Os mais pais tiveram um desgosto porque descobriram o único defeito da sua filha mais velha, mas mesmo assim nunca deixaram de a amar.
A morte da minha irmã deixou um vazio na nossa família porque a era luz, ela era a princesa, a protagonista, a engraçada. Sem ela a nossa casa e a nossa vida ficaram vazias. Eu não me importava de ser a segunda opção, eu não ficava mal quando as conquistas da minha irmã eram mais celebradas do que as minhas, porque eu sabia que eu não era esquecida. A Verónica andava na equitação, tinha uma paixão absurda por cavalos, em particular, e teve o azar de morrer durante uma prova. Foi catapultada de um cavalo em movimento, o seu cavalo favorito. Foi uma questão de segundos, de instantes. Não houve hipótese de reanimação porque ela morreu de ataque cardíaco, tal era a descarga de adrenalina. Não houve tempo para lhe dizer o quanto a amava, o quanto eu estava orgulhosa dela, o quanto ela era importante para mim... Não houve tempo para nada. Mas houve tempo e oportunidade para eu me aproximar da sua namorada, para eu me tornar amiga da minha cunhada, porque os mais pais apagaram completamente a existência da Nicole das memórias da Verónica. Acho que fui uma peça crucial que ajudou a Nicole a fazer o luto da minha irmã, ou pelo menos parte dele, porque assim que conheci o Miguel, afastei-me da Nicole e nunca mais tive oportunidade de me justificar e de lhe pedir desculpas. Espero que ainda vá a tempo.
12. NICOLE
A Nicole foi o primeiro e único grande amor da minha irmã. Nós tínhamos as típicas conversas de irmãs sobre rapazes (e raparigas) que achávamos interessantes e com uma certa beleza. Eu nunca gostei de nenhum rapaz assim mais a sério, não me apagava muito, nunca ao ponto de querer um relacionamento sério, a única coisa que queria naquela altura era dar uns beijinhos e ter alguém que me achasse especial e, de facto aconteceu. Mas a minha irmã era diferente, a minha irmã entregava-se a sério às suas paixões, como se o mundo fosse acabar amanhã. Resultado? Muitas vezes ela ficava desiludida e ficava trancada no quarto durante dias a chorar com o seu coração partido. Os meus pais ficavam desesperados com ela, diziam-lhe que o melhor era arranjar um rapaz porque as raparigas eram mais intensas e ela ia ter desgostos para sempre, mas ela não ouvia e dizia-me sempre que ainda havia de encontrar a sua princesa. E encontrou. Um ano antes dela morrer, apareceu a Nicole e eu nunca vi a minha irmã tão feliz. A Nicole foi o seu grande amor. A sua paixão. O seu motivo para respirar. A pessoa que a incentivava todos os dias e a fazia querer levantar da cama para enfrentar o preconceito e a maldade das pessoas. Porque as pessoas eram más e não sabiam que o amor chega a todos da mesma forma, não apenas aos heterossexuais.
A Nicole era o oposto da minha irmã, mas há quem diga que os opostos se atraem. A Verónica gostava da ousadia da Nicole, gostava das suas madeixas azuis a contrastar no seu cabelo preto, gostava do seu braço esquerdo todo tatuado com desenhos que ela própria fez, gostava das sardas e do piercing brilhante que a Nicole tinha no umbigo. E a Nicole amava a simplicidade da minha irmã, amava que a minha irmã amasse os animais, sonhava os sonhos da minha irmã como se fossem os dela. Elas completavam-se tão bem que eu desejei muitas vezes encontrar alguém que me completasse da mesma forma. Eu pensava que o Miguel era essa pessoa, a minha outra metade, a minha alma gémea, mas enganei-me. A minha irmã encontrou a sua alma gémea e eu acho que neste momento ela está em paz porque partiu feliz. A Nicole ficou destroçada porque ficou sem a presença da minha irmã para sempre. Disse que nunca mais teria forças para amar alguém, mas eu discordo. Tenho a certeza que a Verónica deseja a felicidade da Nicole, e se para isso ela precisar de encontrar outro alguém para amar, tenho a certeza de que, onde quer esteja, a minha irmã vai estar a sorrir e a aplaudir. Porque no fundo, só lhe deseja o melhor.
13.AMIZADE
- Há quanto tempo não tens contacto com a Nicole? - falta meia hora para acabar a sessão, quando a doutora me faz esta pergunta. Fico surpreendida e não digo nada durante um tempo porque estou a tentar perceber quanto tempo passou...
- Um ano... há quase um ano... - é muito tempo... Não acredito que passou tanto tempo...
- Porque é que nunca mais falaste com ela? - congelo
- Não sei... - baixo a cabeça e tento esconder a frustração e as lágrimas que estão à porta
- Tens o número de telemóvel dela? As redes sociais? - abano a cabeça negativamente - Se por acaso alguma vez a voltasses a ver, o que dirias? - o meu coração fica apertado e enche-se de esperança
- Acho que... acho que pedia desculpas...
- Desculpas porquê?
- Desculpas por não ter valorizado a pessoa que a minha irmã mais amava, por não ter lutado para preservar a nossa amizade, a memória da Verónica... Por ter sido egoísta... - já estou a chorar desalmadamente com a cabeça entre os joelhos, já estou a achar que sou uma idiota, uma inútil, que nunca vou conseguir recuperar aquilo que eu era antes da morte da minha irmã, antes da minha história com o Miguel....
- Não precisas de pedir desculpa, Eva... Tu não fizeste nada de errado... - tenho umas mãos a abraçar-me pelas costas, uma voz que eu bem conheço a pedir-me desculpa, o cheiro do perfume da minha irmã a pairar no ar... Mas não tenho a minha irmã... então...
- Nicole? - ela põe-se de cócoras à minha frente e limpa-me as lágrimas e o meu coração quase me cai do peito porque ela está igual e eu estou tão... perdida
- Está tudo bem, Eva... - as lágrimas rebentam outra vez e encharcam a minha cara, mas são lágrimas de felicidade
- Obrigada, Doutora... - olho para a doutora, que está à porta do seu consultório com os olhos a brilhar e que responde:
- Não tens de agradecer, Eva... vai ficar tudo bem... - despede-se com um sorriso doce e sai, fechando a porta, deixando-me a mim e à Nicole a recuperar a nossa amizade.
- Desculpa, desculpa, desculpa... - estou a chorar, estou a olhar para ela com o mesmo cabelo preto, as mesmas madeixas azuis, o mesmo olhar doce que apaixonou a minha irmã... Ela abraça-me e eu sinto a energia da minha irmã entre nós... - Eu sinto-me tão perdida... Eu fui tão estúpida... Eu afastei toda a gente, Nicole... Eu perdi todos os meus amigos... Eu estraguei tudo... - ela não me larga, ela não me deixa ir, mas olha-me nos olhos e diz:
- Tu não me perdeste, Eva. Eu estive sempre aqui. Eu soube de ti o tempo todo. - Como? - Eu sei o que se passou contigo e eu também errei, porque eu queria estar do teu lado, mas eu estava a fazer o meu luto e eu não conseguia aproximar-me de ti porque tu fazias-me lembrar a tua Verónica e isso só me magoava mais, entendes? - Sim... - Mas agora eu estou bem. Agora eu estou aqui para ti e eu não te vou largar, vamos recuperar a nossa amizade, vamos recuperar o tempo perdido, sim? - Sim! - Eu vou ajudar-te a fixar bem. Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui. Não vou a lado nenhum. Nunca mais.
14. VERDADE
Sempre ouvi dizer que a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima, sobretudo quando menos esperamos. E foi isso que aconteceu, a verdade sobre o facto de o Miguel ser meu irmão deu-se muito repentina e inesperadamente e eu percebi logo que algo estava errado pela maneira como o meu pai olhou para o Miguel quando ele entrou por aquela porta. Manteve-se o tempo todo calado, a olhar para a nossa cumplicidade com um profundo ar de incredulidade e pânico. Eu pensava que estava tudo bem, que estava a agir estranhamente porque eu nunca lhe apresentei nenhum namorado e ele podia estar a conter-se para não ser o pai protetor, mas estava enganada. Ele sentiu-se culpado por nos ter escondido a verdade, sentiu-se culpado por destruir o meu primeiro relacionamento com uma verdade tão grave.
Depois de cantarmos os parabéns e de a maioria dos convidados se ter ido embora, o meu pai pediu que todos nos juntássemos na sala porque tinha algo importante para dizer. Ele estava branco como a neve, ao ponto que a minha mãe ficou preocupada porque pensava que ele podia ter comido alguma coisa estragada. A única coisa que o meu pai comeu que estava estragado, foi o seu orgulho.
Uma vez que todos estávamos na sala curiosos para perceber o motivo daquela repentina reunião familiar, eu aproveitei para aconchegar-me nos braços do Miguel, sem suspeitar que iria ser a última vez.
- Bem... - a voz do meu pai estava trémula, hesitante, nunca o tinha visto assim - o motivo pelo qual eu convoquei esta reunião é porque... estamos todos em família. Porque o Miguel faz parte da família. - Ainda sem saber o que estava por vir, eu sorri e disse:
- Obrigada pai, obrigada por aceitares tão bem o Miguel e o considerares como família... - eu estava realmente feliz. O meu pai sorriu, mas o homem estava prestes a cair para o lado de tão branco que estava...
- Querido... sentes-te bem? - perguntou a minha mãe, mais uma vez
- Sim... é só que... O Miguel... É mesmo da família...
- Já sabemos, querido. Fico muito feliz que tenhas aceite o namorado da Eva... - a minha mãe falou outra vez, estávamos todos muito contentes
- Não.... Vocês não estão a perceber... - o meu pai estava a suar como se tivesse acabado de correr a maratona - O Miguel é mesmo da nossa família porque... Porque é fruto do meu primeiro casamento... A mãe dele foi a minha primeira mulher... - Fez-se silêncio e eu congelei, o Miguel congelou e a minha avó caiu literalmente para o lado
- Como é que é? - perguntou a minha mãe - COMO É QUE É? - a minha mãe entrou em pânico e começou a gritar - COMO É QUE TU DEIXASTE QUE A TUA FILHA SE ENVOLVESSE COM O PRÓPRIO IRMÃO!? COMO É QUE FOSTE CAPAZ DE NÃO ME DIZER QUE FOSTE CASADO ANTES DE TE CASARES COMIGO!?
- EU SABIA LÁ QUE ELA SE IA METER COM O MIGUEL!? - agora a culpa é minha!?
Eu levantei-me do meu lugar, olhei para o Miguel e ele olhou para mim como que a pedir desculpa, mas sabendo que o nosso futuro não ia mais existir e eu deixei que o caos se instalasse e subi para o meu quarto e chorei. Eu só queria ter alguém. O Miguel. Ele era a única pessoa que eu queria amar e ter na vida, mas não posso porque o meu pai decidiu não me contar sobre o filho que teve antes de se casar com a minha mãe e agora eu sinto-me nojenta porque cometi o pior dos pecados.
Se eu tivesse sabido da verdade mais cedo, eu teria feito tudo de forma tão diferente... O meu coração estava, apesar de tudo, finalmente feliz... O Miguel fez-me feliz durante muito tempo, embora tivesse as suas características e os seus defeitos... O Miguel era tudo e tão de repente tornou-se em nada. Depois desse dia nunca mais o vi nem falei com ele, mas continuei a sentir o seu cheiro, o seu toque e a sua presença, todos os dias em todo o lado, em todos os recantos do meu corpo. Fiquei, literalmente, no fundo do poço, e se não fosse a psicóloga, eu ainda estaria lá.
15. NOVE MESES
Um bebé precisa de, aproximadamente, nove meses para se desenvolver completamente no útero materno. Eu acho que me posso considerar um bebé, porque demorei nove meses para me reconstruir depois de ter passado pela fase mais difícil da minha vida. Sinceramente, eu não tinha grandes esperanças sobre conseguir voltar a ser quem eu era. Porque eu estava destruída. O meu coração, a minha identidade, tudo estava destruído. Dificilmente conseguiria ser capaz de deixar o passado no lugar dele, de uma vez por todas, mas com a ajuda da Doutora Cristina, foi tudo tão mais fácil. Já não falo no Miguel com mágoa ou com rancor; já não choro quando penso nele. Já não tenho nojo quando penso que ele foi a pessoa com a qual perdi a virgindade; já me consigo olhar ao espelho outra vez. Já não penso no filho que não deixei nascer com uma culpa enorme; agora o que sinto é compaixão por todas as outras raparigas que fizeram o mesmo que eu. Porque nada na vida acontece por acaso, e se eu aprendi algo com o Miguel, é que também mereço ser amada, também sou digna da atenção de alguém. E a morte da minha irmã ensinou-me a aproveitar mais os momentos, a ser genuína; percebi o que tempo que vivemos não interessa para nada se não tivermos deixado uma marca. E a minha irmã deixou.
- Eva, querida. Esta é a nossa última sessão. Nunca pensei dizer isto tão cedo, mas... Tu não és a mesma pessoa que pisou este consultório há nove meses atrás. Tu estás livre, estás tão bonita... fico muito feliz que tenhas conseguido libertar essas amarras! Mas há uma coisa que te queria pedir. E estás no teu direito de aceitar ou não a minha proposta, mas eu não to pedia se não achasse que não estavas pronta... - olho para a doutora sentada na sua poltrona amarela pela última vez e o meu coração fica apertado, mas está tão feliz e tão grato...
- O que é doutora?
- Eu gostava muito que te encontrasses com o Miguel e lhe contasses tudo o que sentiste, tudo o que passaste... sê sincera com ele... pede-lhe desculpa, agradece-lhe.... Diz-lhe o que quiseres ou então não lhe digas nada, mas marca um encontro com ele para pores um ponto final neste capítulo de vez. - Os olhos doces da doutora deixaram-me mais confiantes, disseram-me que era a coisa mais acertada a fazer.
- Vou fazer isso, doutora. Obrigada. - nove meses que acabaram com um abraço sincero.
No dia seguinte, com os dedos a tremer, peguei no telemóvel e liguei ao Miguel.
- Estou? - a voz dele ao atender o telemóvel fez-me tremer
- Miguel? - a minha voz estava a tremer - Sou eu, a Eva. - fez-se silêncio...
- Eva? És mesmo tu? - a voz dele muda de tom e volta a ser a mais tranquilizante que conheci
- Sim... Eu... achas que podíamos combinar um café para... conversar? - não acredito que estou a falar com ele.... Ele hesita antes de responder e nesse momento só me apetece desligar o telemóvel
- Sim... claro que sim... seria bom ver-te novamente... - Ai, o meu coração... - Diz-me onde e quando e eu lá estarei.
- Amanhã, na gelataria da cidade, às quatro da tarde?
- Sim, perfeito. Até amanhã, Eva. - e desligou e eu só fiquei com vontade de me enfiar num buraco bem fundo. Fiquei com medo do amanhã e, por isso, mal dormi.
Não tinha nenhum ataque de ansiedade há meses e, logo naquela manhã, tive dois seguidos e tive de ligar à doutora.
- Eu não consigo... eu vou ligar-lhe, eu vou desmarcar... Eu não consigo... - eu estava desesperada, trancada no quarto a chorar e os meus pais não sabiam o que fazer porque há meses que eu não ficava assim
- Eva... tem calma... Respira... falta muito pouco tempo para a hora que combinaste... Não vais fazer nada, mas eu vou ajudar-te!
- C... Como?
- Vocês combinaram encontrar-se num local público?
- Sim...
- Então fazemos assim... Dizes-me onde é que eu vou lá ter antes das quatro horas e quando ele estiver contigo, eu vou estar lá também, para te ajudar, para te apoiar caso aconteça alguma coisa, sim? - acabou de sair um peso enorme de cima do meu coração
- Sim... obrigada, obrigada doutora, a sério... Nunca lhe vou conseguir retribuir o suficiente...
E assim foi... Às quatro horas em ponto eu estava à espera dele na gelataria, a duas mesas de distância da doutora Cristina... Eu odeio atrasos, já estava a começar a entrar em pânico quando o espanta-espíritos da porta da gelataria tiniu e ele entrou... E o meu coração parou.
Já não me lembrava do quão bonito ele era... do quão alto era... Do quão atraente ele era... Agora que sei que ele é meu irmão as coisas mudam de figura e eu não devia sequer ter estes pensamentos, mas agora nem sequer sinto nada por ele para além de... Empatia. Quando me vê, vem na minha direção e senta-se sem dizer nada. Depois aproxima-se de nós alguém para recolher os nossos pedidos e ele pede, para os dois, gelado de menta e chocolate. O meu favorito... Ele lembrou-se.
- Obrigada, mas... Não era preciso... - digo eu, finalmente, deixando-o surpreendido
- Era preciso sim, Eva. Sei que não é com um gelado que vamos esquecer tudo o que aconteceu, mas é uma forma de me redimir.
- Redimir? Porquê?
- Porque eu sei que também te magoei... - engulo em seco - Não sabes o quão fiquei feliz quando me ligaste... Eu queria ter tido oportunidade para te pedir desculpa, para te dizer que o tempo que estivemos juntos realmente significou alguma coisa para mim... Mas a minha mãe falou com o teu... Com o nosso pai... E ele disse que falou com a tua psicóloga e ela não recomendou que tu me visses... - como é que é?
- Há quanto tempo é que isso foi?
- Há.... Cinco meses, penso...
- Mas sabes... foi a minha psicóloga que me aconselhou a falar contigo hoje... Porque eu estive nove meses na terapia e tive finalmente alta.... - Os olhos dele brilham e dá perfeitamente para perceber que ele ficou surpreendido
- Nove meses!? Com que regularidade?
- Três sessões de uma hora por semana.
- Eva... Eu... Eu lamento... Eu não fazia ideia... foi tudo por minha culpa, desculpa...
- Não lamentes, Miguel... Ninguém fazia ideia de quem eu era... Nem mesmo eu própria... Mas eu agora não quero falar disso, eu queria pedir-te desculpa por todas as vezes que errei contigo quando.... Estávamos juntos... E também agradecer-te, por teres sido o meu primeiro... em tudo.
- Em tudo? Tudo mesmo?
- Tudo mesmo... E também queria perguntar-te se... estás em interessado em... ser o irmão que eu nunca tive.... Porque eu já perdi uma irmã, não quero perder o único que me resta... - ele pega na minha mão e olha para mim um momento antes de responder
- Eu vou fazer de tudo para ser o melhor irmão que conseguir para ti... - estou a chorar, ele limpa-me as lágrimas e eu olho para o gelado que derreteu completamente
- Abraças-me? - pergunto
- Claro. - Ele abraça-me e eu sinto-me tão bem. Acho que nunca estive tão bem. Pelo canto do olho vejo a doutora Cristina a sorrir e a limpar as lágrimas que também lhe encharcam a cara. Lágrimas de orgulho.
16. DANIEL
Conheci o Daniel exatamente um ano e meio depois de ter conhecido o Miguel. A culpa foi da Doutora Cristina, um anjo que pôs outro anjo na minha vida. A minha relação com a doutora é muito mais para além da relação de psicóloga-paciente. É uma relação de amizade, compreensão, apoio, fraternidade... Ela tornou-se parte da minha vida e eu tornei-me parte da vida dela ao ponto de que eu agora sou convidada das suas festas de família. E foi numa dessas festas de família, a festa do seu aniversário, que conheci o seu sobrinho Daniel. Foi ela própria que mo apresentou, que me incentivou a aproximar-me dele, a cuidar dele, porque ele estava num processo de recuperação pela morte da sua namorada. Ele parecia feliz, mas, na realidade, estava destruído e ainda à procura de respostas, de uma tábua de salvação. E eu fui essa tábua de salvação.
- Eva, eu sei que neste momento não estás com cabeça para te envolveres com ninguém e eu não quero, de todo, forçar-te a isso, mas tenho uma pessoa para te apresentar. É o meu sobrinho Daniel. Ele é muito parecido contigo no que toca a personalidade, mas também é muito frágil. A namorada dele morreu há três meses num acidente de carro e ele ainda está a recuperar... - imediatamente levei a mão à boca, com o choque, mas enchi-me de compaixão - Era ele quem estava a conduzir o carro... - o meu coração ficou em pedaços - Foi uma noite de inverno, o chão estava molhado e escorregadio da chuva... foi uma tragédia... Ele sente-se muito culpado e está a sofrer bastante...
- Mas, sendo nessas circunstâncias, podia ter acontecido a qualquer pessoa...! - respondi eu
- Eu sei, Eva. Eu tenho tentado dizer-lhe exatamente isso... Mas ele simplesmente não ouve, não aceita... Por isso tenho esperança de que te possas aproximar dele e reforçar a ideia de que não controlamos absolutamente nada na nossa vida...
- Claro que sim, pode contar comigo, vou fazer o que estiver ao meu alcance! - e fiz
Os dias, as semanas, os meses seguintes... Eu estive lá para o Daniel. Ouvi-o. Abracei-o. Vi-o chorar. Vi-o destruído. Desesperado. Percebi a doutora quando disse que ele estava como eu. E tentei cura-lo com amor. Compreensão. Com tudo o que estava ao meu alcance. E consegui. E encontrei a minha nova razão de viver. Passaram-se quatro meses e a nossa cumplicidade e intimidade era visível aos olhos de toda a gente. Éramos amigos, éramos amantes. Éramos tudo. Eu despertei o Daniel para a vida e ele fez-me perceber o que é realmente viver. O que é realmente amar. O que é não depender de alguém. Porque havia amor entre mim e o Miguel, mas era um tipo de amor tóxico e urgente e o nosso amor é tudo menos isso. É um amor que percorre todas as veias do nosso corpo com uma lentidão deliciosa, sem pressa; o tempo de quem diz que o mundo espera por nós, porque já sofremos demasiado e tão de repente que a única coisa que nos resta é ser, deixar acontecer naturalmente. Com o Daniel eu consigo ser a Eva que era antes da morte da minha irmã, antes do Miguel, antes de tudo... consigo ser eu... A Eva que não é tóxica, que não tem medo de si mesma, que não tem vergonha de si própria. Porque a Eva que passou pela morte da irmã, a Eva que passou por uma relação tóxica e por um aborto... Essa Eva não era eu. Era uma pessoa perdida. Uma pessoa com uma energia pesada. Dura que nem uma rocha. E a Eva que eu sou hoje é leve como uma pena e está perdidamente apaixonada e perdidamente feliz.
17. O MEU FINAL FELIZ
Confesso que nunca pensei ser mãe tão cedo, mas eis que, a poucas semanas de fazer 24 anos, engravidei da Vera. O nome Vera surgiu em homenagem à minha irmã e em homenagem à falecida namorada do Daniel (Verónica + Raquel). Não veio nada a calhar; fiquei insegura e a pensar que esta era a minha segunda gravidez e eu nem sequer tinha um trabalho fixo, não queria que o Daniel ficasse com todas as responsabilidades e fosse a única fonte de rendimento da família. Foi então que ele se lembrou que eu podia ganhar algum dinheiro, fazendo uma coisa que gosto: cozinhar.
Criei uma página de instagram dedicada a take away de comida saudável e fui fazendo algumas entregas. Demorou muito tempo para que as coisas começassem a ter impacto, mas lá consegui e hoje em dia tenho cerca de dez mil seguidores. O Miguel foi uma grande ajuda porque, tenho em conta que estudou marketing e comunicação, ajudou-me a espalhar o meu "negócio online". Dediquei-me ao Eva's Green Kitchen durante os nove meses de gravidez e depois passei o testemunho à minha mãe, que se despediu do seu trabalho e trouxe umas amigas para ajudar no negócio. E eu tive tempo para me dedicar à minha filha e perceber o quão bom é ser mãe.
Certo dia, estava eu a amamentar a Vera, o Daniel chegou à sala, ficou a admirar-nos e disse:
- O papel de mãe fica-te mesmo bem, amor. Acho que temos de ponderar fazer outra coisa bonita como esta... - e tocou no cabelinho louro que brotava na cabeça da nossa filha, olhando para mim com doçura
- Acho que ainda não estou preparada para uma terceira gravidez.... Daqui a uns três anos - só depois de ter falado é que me lembrei do facto de nunca ter falado sobre o meu aborto a... Absolutamente ninguém, para além da minha tia e da doutora Cristina... Como ele virou costas, tinha esperança de que ele não tivesse ouvido
- Terceira? Disseste... Terceira? - os olhos dele olharam para mim preocupados, eu suspirei, estava na hora de lhe contar o resto da história
- Sim... vem cá, há uma coisa que eu não te contei... - ele sentou-se ao meu lado - eu engravidei do Miguel - ele arregalou os olhos e apertou a minha mão - houve uma vez que ele acabou dentro de mim porque pensava que eu estava a tomar a pílula, mas eu não estava...
- Tomaste a pílula do dia seguinte? - perguntou ele, eu assenti
- Sim, mas não fez nada...
- Não disseste nada a ninguém?
- Não... fui à clínica com a minha tia e fiz um aborto, estava com muito medo e com muito pouco tempo de gestação... Mas consegui e não ficou nada... E a minha tia esteve sempre lá... - comecei a chorar - E depois contei à tua tia mais tarde... E agora sabes tu... Mas foi muito complicado... - eu deitei a minha filha no berço, adormeceu depois de uma overdose de leite materno, e o Daniel abraçou-me e eu fiquei aninhada nos seus braços
- Obrigada por me teres contado... Agora temos um anjo no céu e outro na terra, a nossa Vera.... - fez-me cafuné no cabelo - E acho que está na altura de encerrares este assunto de vez e contares ao Miguel que tens um filho dele... - NÃO!
- Não... Por favor, não quero... Não me faças isso... está tudo tão bem agora... - ele notou que eu fiquei agitada, por isso tranquilizou - me...
- Pronto... está tudo bem... Vamos ficar por aqui, vamos deixar este assunto aqui... está bem assim?
- Sim, por favor...
E ficámos os dois abraçados até a Vera chorar e interromper o nosso momento. Mas não a julgo, é apenas um bebé de sete meses a pedir colo e amor.
Uns anos depois, tentámos dar um irmão ou uma irmã à Vera, mas sem sucesso... percebi que sofria de endometriose e que, também devido ao aborto que fiz quando era mais nova, era complicado dar mais um irmão à Vera... Mas eu não sou me importei, porque com mais um bebé ou sem mais um bebé, eu já era feliz ao lado do Daniel e da Vera. Porque percebi que sem ter passado por tudo aquilo que passei na minha adolescência, eu não me teria encontrado nem teria encontrado o amor e o verdadeiro sentido da minha vida.
FIM
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