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Despedidas

Nunca gostei de despedidas.
Nunca gostei da dor que se instala no meu peito depois de um adeus.
Nunca gostei da ansiedade de saber que depois da última vez não vai haver mais nenhuma.
Nunca gostei do vazio e da tristeza que me sufocam depois da partida.
Nunca gostei da ideia de seguir em frente e fingir, ainda que aparentemente, que está tudo bem e que continua tudo igual. Porque nunca mais fica tudo bem ou tudo igual. 
Nunca gostei de chorar por aquilo que é inevitável, que não posso mudar, que não posso apagar, que não posso reverter. É uma sensação de desespero que toma conta de mim. É incontrolável. É mais forte do que eu. É resistente a todas as palavras de consolação. É resistente a todos os abraços. É resistente a todos os "estou aqui para ti", a todos os "vais ver que o tempo ajuda a curar".
Mas como é que se cura a dor de uma despedida? Mas o que fazer para a dor ser mais tolerável? Mas quando é que vai deixar de doer? Como é que se lida com a culpa de deixar o futuro e a esperança para trás? Como é que se preenche um vazio do tamanho do mundo? Como é que se volta a encontrar sentido depois de uma despedida precoce?
A despedida está, muitas vezes, de mão dada com a solidão. A solidão que se instala nas nossas vidas, no nosso peito, nas nossas cabeças, no nosso tempo, no nosso dia a dia.
Como é que a vida pode seguir, quando tudo o que resta é mágoa e solidão? Como é que a vida pode seguir, quando as despedidas são surpreendentes e, muitas vezes, estão à nossa espera ao virar da esquina?
As despedidas são, por vezes, o reflexo de tomadas de decisão. Decisões repentinas ou ponderadas. Decisões certas ou erradas. Decisões leves ou pesadas. Decisões tomadas pela nossa cabeça ou pela cabeça dos outros. Decisões que só nos cabem a nós. Decisões difíceis. Porque nenhuma decisão pensada com cabeça e com coração, é fácil de tomar. Há decisões que não queremos tomar, mas são fundamentais. Quando tomamos uma decisão, encerramos um ciclo. Um ciclo de boas vindas e de entusiasmo. Ou um ciclo de despedidas e de nostalgia. As despedidas estão sempre presentes na nossa vida, porque estamos constantemente a iniciar e a terminar ciclos.
Estamos constantemente a dar as boas vindas e a despedir-nos. Mesmo que inconscientemente. As despedidas fazem parte do crescimento. Com elas, dependendo das circunstâncias, vem muita dor e arrependimento. Muitas coisas que podíamos ter feito diferente, mas não fizemos. Muitas coisas com as quais já não nos identificamos. Muitas lágrimas que lavam todos os erros que cometemos. Muitos sorrisos por aquilo que fomos e vivemos. Muito reconhecimento de que chegou a hora de crescer.
Chegou a hora de deixar para trás, aquilo que não nos leva para a frente. Chegou a hora de olhar para a frente, sabendo que fazíamos tudo outra vez. Chegou a hora de olhar para as memórias e deixá-las onde pertencem. 
Sem despedidas não há evolução. Sem despedidas não arriscamos. Sem despedidas não damos oportunidade ao coração de falar e de decidir que chegou a altura de mudar. 

- Carina Subtil 

(Texto escrito no dia 20/11/2024)



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