Tenho saudades dos momentos quando eles ainda estão a acontecer. Não sei se é normal ou se é uma coisa minha e característica da idade, mas a verdade é que sou invadida por uma nostalgia gigante quando estou a viver uma coisa pela qual ansiava há muito tempo. Por exemplo, quando estou na praia gosto de estar no meio do mar, com os pés afundados na areia, a olhar e a absorver toda aquela imensidão de azul. Olho para todos os lados e respiro fundo várias vezes para me embriagar com o cheiro a maresia e guardar para sempre na minha mente aquele cenário. Quando estou num evento de família, a partilhar segredos e gargalhadas à mesa, gosto de me manter calada e quieta, apenas a observar tudo o que está a acontecer. Quero guardar na minha mente todos os momentos da melhor forma possível, porque sei que há coisas que nunca mais se vão voltar a repetir, só as vivemos uma vez.
O tempo passa e foge das nossas mãos a uma velocidade absurda. Já não somos crianças, mas sim adultos com responsabilidades, com medos, com inseguranças, com vidas cheias de tarefas e compromissos que exigem que tudo seja marcado com uma certa antecedência. Somos adultos um pouco egoístas porque pensamos apenas em nós, nas nossas carreiras, nos nossos objetivos, nos nossos sonhos, nos nossos filhos, no nosso bem estar físico, mental e financeiro. Mas, sabe lá Deus como, fazemos esforços para conseguirmos ter uma pausa no meio dessa rotina caótica e estar com a nossa família e com aqueles que amamos mas esquecemos de ligar ou de mandar uma mensagem no dia a dia. Queremos controlar tudo e ter a certeza de que nada corre fora do planeado. Desejamos que o tempo pare só por um segundo, só para termos mais tempo. Mas, infelizmente, o tempo não para nem se compra ou vende com dinheiro.
Tenho saudades do tempo em que achava que tinha tempo para tudo. Tenho saudades do tempo em que tinha três meses de férias no verão e brincava todos os dias no parque da minha aldeia com os meus amigos. Tenho saudades das aulas que tinha na escola primária, dos amigos que fazia com facilidade, dos problemas que não tinha. Tenho saudades de quando chorava porque a professora não me escolheu para ler um parágrafo do conto na aula de português. Agora choro de cansaço e com medo do futuro. Agora choro porque quero poupar mas não consigo. Agora choro porque está tudo a mudar e a piorar e não era suposto ser assim. Agora choro com saudades daquilo que vivi quando era criança e que nunca mais vou poder viver, pelo menos não com a mesma intensidade. Tenho saudades de quando via os meus amigos todos os dias e a toda a hora, e agora é preciso marcar as coisas com pelo menos um mês de antecedência porque todos trabalham e vivem as suas vidas à sua maneira e às vezes nem têm tempo para si mesmos. Tenho saudades de quando era tudo mais fácil, porque agora é tudo mais difícil.
Agora não sinto a mesma adrenalina nem as mesmas borboletas da barriga pelo desconhecido e imprevisto. Agora sinto ansiedade e calafrios, dores de cabeça e insónias. Sinto as contas para pagar, as dores nas costas e no coração, a culpa de não conseguir chegar a todo o lado nem dar resposta a tudo. Sinto que a vida é demasiado curta para tudo o que quero fazer mas nem sei por onde começar. Tenho saudades do passado, do presente e do que ainda não vivi. Saudades de ter certezas e de saber que tudo está bem e que vai ficar bem. Saudades de me agarrar a histórias e não a memórias. Saudades de viver como se não houvesse amanhã. Saudades das pessoas quando ainda nem me despedi delas. Saudades dos dias, das horas, dos minutos e dos segundos em que fui feliz e não sabia.
- Carina Subtil

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