Avançar para o conteúdo principal

A Inquietante Vida dos Adultos

Não consigo dormir com tantas portas abertas na minha cabeça. Fazem muito barulho. Um zunido ensurdecedor. Um sonho que sonhamos de olhos abertos e se confunde com a realidade. Uma aflição que dói na alma. Um filme de memórias, histórias e enredos impossíveis que se fundem num só. Uma roda dentada que luta a todo o custo para parar mas continua a perseguir a luz, o combustível de todos os pensamentos. As vozes indecifráveis que nos dizem o que temos de fazer no dia a seguir, a quem temos de ligar ou mandar mensagem. O corpo que paga e que implora por sossego e por um momento de silêncio. E as noites. As noites de calor que nos mantêm despertos com desconforto e trazem à tona todos os pesadelos. O arrependimento. O arrependimento da manhã seguinte, pelas coisas que deixámos acumular, pelos sonhos que não deixámos voar. A urgência que temos por viver um dia de cada vez e por nos resignarmos à segurança da rotina. 

Tudo isso faz-nos repensar aquilo que é mais importante. Faz-nos sentir culpados por trabalhar de mais e descansar menos ou, por outro lado, fazer uma pausa quando devíamos estar a trabalhar. Trabalhar para ganhar dinheiro e independência e compensar a carência. Trabalhar para ter menos tempo e para dar resposta às exigências da vida. Trabalhar para nos sentirmos úteis e para gastarmos dinheiro em coisas inúteis. Trabalhar até morrer, ou até sermos demasiado velhos e incapacitados. E viver para trabalhar.

Tudo na vida adulta se resume a isto: ao trabalho, ao dinheiro, à culpa, à falta de tempo, ao cérebro que não desliga e que nos recorda constantemente daquilo que fizemos, daquilo que vamos fazer e daquilo que temos de fazer. Como se fosse um diabo impiedoso ou, por outro lado, e por raríssimas vezes, um anjo compreensivo e pacificador. 

Nunca sabemos como vamos acordar ou adormecer. Nunca sabemos como vai começar o dia ou como vai terminar. Nunca sabemos quando vai ser o nosso primeiro dia ou o último. Apenas estamos preocupados e concentrados em viver e em seguir os planos e os sonhos, sem nos prepararmos para os imprevistos. Aconteça o que acontecer. 

Quando somos crianças, não damos o devido valor ao privilégio que temos por não ter preocupações. Temos imenso tempo livre e passamos horas a brincar e a ansiar pelo próximo intervalo para estarmos com os nossos amigos. No entanto, também ansiamos por crescer e por nos tornarmos adultos. Porque os adultos têm dinheiro e fazem coisas fixes e conduzem carros. Que ingénuos e ingratos somos, sem sequer nos aperceber... Quando somos adultos e conseguimos finalmente alcançar o que desejamos, tudo o que queremos é ser crianças de novo. 

Acho que, de certa forma, todos estes cenários descrevem muito bem a vida dos adultos. Que é inquietante, revoltante e por vezes desesperante também. Queremos ter as respostas para tudo. Queremos lutar para alcançar os nossos objetivos. Queremos ser alguém. Queremos deitar a cabeça na almofada e dormir tranquilamente. Queremos que o amanhã seja melhor. 

- Carina Subtil 



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Acabei o Curso, e Agora?

 No passado mês de julho, terminei a minha licenciatura em Comunicação e Media pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria. Desde então, enviei muitos currículos, seja para trabalhos na minha área ou não. Embora eu acredite que termos um diploma e um curso superior nos abre mais portas e oferece mais oportunidades a nível de carreira, também sei ser realista e reconhecer que nada nos garante que vamos ter emprego na nossa área de formação imediatamente depois de terminarmos o curso. Sei que o meu ponto de vista não é consensual, mas a verdade é que o dinheiro não cai do céu e é sempre bom ter um plano B quando o plano A não corre como esperamos. Porque, de qualquer forma, tenho de trabalhar. Também decidi não fazer mestrado exatamente por isso; porque quero ganhar experiência profissional e independência financeira. Não tenho medo de trabalhar nem vergonha de aprender coisas novas. Também não serei a primeira pessoa a trabalhar em algo que não é pro...

I am (not) feeling 22

Hoje, dia seis de janeiro de dois mil e vinte seis, faço vinte e dois anos.  E a primeira coisa que me passa pela cabeça quando penso na idade que faço é: que horror! O tempo está a passar absurdamente rápido e parece-me uma idade demasiado "séria". Porque, tal como diz o título deste texto, não me sinto com 22 anos*. Mas talvez não me sentir com 22 anos não seja rejeitar a idade, mas aprender a lidar com ela à minha maneira. De repente já sou adulta, já trabalho, já ganho o meu próprio dinheiro, já desconto para a segurança social e as crianças e adolescentes já me tratam por senhora! Se, aos catorze anos, me tivessem dito que a minha vida ia dar tantas voltas, eu não acreditava. Sinto que sou sempre ligeiramente repetitiva nos textos que publico sobre o meu aniversário, ou até sobre o fim de ano, mas não é propositado. De facto, tenho sentido o tempo a passar demasiado depressa. O tempo passa por entre os meus dedos e às vezes nem sei o que fazer com ele; por vezes até pare...

Review - Livros de Leslie Wolfe

Em primeiro lugar, devo avisar que este artigo é maioritariamente direcionado para as pessoas que, tal como eu, gostam de ler. Caso não gostem de ler mas estejam interessados de conhecer a história por detrás destes livros ou gostem deste tipo de conteúdo então convido-vos também a continuar a ler. Escolhi estes três livros da Leslie Wolfe para serem os protagonistas da minha primeira review aqui no blog. Para começar: Quem é Leslie Wolfe? Leslie Wolfe é uma escritora norte-americana cujos livros se tornaram bestsellers e cujo trabalho tem sido elogiado pelos leitores e pela crítica, desfrutando de um sucesso e reconhecimento crescentes, com solicitações diversas, incluindo da indústria cinematográfica de Hollywood. Os romances de Leslie quebram o molde dos thrillers tradicionais, surpreendendo pela notável compreensão da natureza humana e pela forma invulgar como retratam os ambientes, as situações e as personagens. O meu primeiro contacto com a autora foi através do livro "A rap...