Não sei fazer mais nada na vida além de escrever.
Escrevo como se a minha sobrevivência dependesse disso. Escrevo com uma urgência que transcende a compreensão humana. Escrevo como se precisasse mais das palavras do que de ar para respirar. Escrevo porque me faltam pessoas para falar sobre os meus problemas e porque o medo da incompreensão é maior que o medo da solidão. Escrevo porque me liberta e porque ajuda a fechar todas as feridas. Mesmo que o que eu diga não faça sentido. Escrevo quando me dói a alma ou quando preciso de manter a calma, tal é a tempestade que vai no meu peito ou na minha cabeça. Escrevo para acreditar mais em mim, talvez assim consiga confiar nas minhas próprias escolhas e intenções, talvez assim consiga exprimir melhor as minhas emoções.
Escrevo em prosa e em verso. Escrevo o abstrato e o concreto. Escrevo factos e escrevo opiniões. Escrevo as melodias que fazem aquecer os corações. Escrevo coisas que não partilho com ninguém e coisas que me dão vontade de partilhar com toda a gente. Nem sequer sei se escrevo bem. Nem sequer sei se escrevo alguma coisa com sentido, mas faz sentido para mim que seja assim.
Às vezes, só a simples ação de pressionar as teclas de um computador e preencher uma página branca de word, deixa-me mais tranquila e aliviada, faz sair de mim um peso que eu não sabia que carregava. Às vezes, só a simples sensação de pegar numa caneta e rabiscar algumas palavras numa folha em branco faz-me sentir realizada e alivia-me. É difícil de descrever aquilo que se sente quando a confusão da nossa cabeça finalmente se organiza e se materializa em algo digno e bom.
Não tenho jeito para mais nada além de escrever. Não sou boa a fazer mais nada. Não me sinto realizada a fazer mais nada. Quem me dera ter talento para tocar um instrumento; para saber pintar uma tela em branco com tintas e cores e formas; para ter um corpo tonificado; para praticar uma modalidade olímpica qualquer; para ter um timbre bonito que conquistasse as pessoas e fosse capaz de encher salas de espetáculos: para ter alguma habilidade para as artes manuais. Quem me dera que as palavras não me faltassem quando está tudo bem, porque é aí que me sinto mais vazia. Porque um escritor sem palavras não serve para nada.
Por muitas palavras que existam no mundo e na língua portuguesa, às vezes nem todas estão disponíveis quando queremos e quando precisamos. Às vezes não conseguimos encontrar as palavras certas para exprimir o que sentimos com clareza. Há palavras que são pesadas e que custam a sair da boca e há palavras que são tão leves que facilmente podem ser levadas pelo vento.
Escrevo sobre tudo. Utilizo todas as palavras que conheço, com esperança que, um dia, alguém escreva sobre mim.
- Carina Subtil
(texto escrito no dia 4 de abril de 2024)

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