Avançar para o conteúdo principal

Espero

"Estou genuinamente cansada de me sentir invisível e continuar à espera. Não sei bem o que me espera, na verdade. Mas sei que espero com esperança de que alguma coisa mude, seja em mim, seja no mundo. Os dias já se tornaram todos iguais. Uma nuvem aqui. Um raio de sol acolá. Uma chuva que cai de vez em quando. O nevoeiro que envolve a manhã como um cobertor nos envolve nos dias mais frios. 365 dias por ano. 7 dias por semana. 24 horas por dia. E eu permaneço à espera que algum dia seja diferente. Espero pelo dia que me traga a dor e por outro que a leve embora. Espero pelo dia que me traga alegria, sabendo que vai durar pouco e que, no dia seguinte, a tristeza vai ser a protagonista. Pelo meio, ainda aprece um dia em que a raiva é a minha melhor amiga. E, para não ficar de fora, os dias que me trazem a sensação de que estou absolutamente só. Espero também que o amor surja nalgum desses dias, porque é coisa rara e só nas horas vagas é que dá o ar de sua graça.

Eu espero e espero e continuo a esperar que a publicidade da televisão acabe para que a novela da noite comece. Espero pelo autocarro que me leva até à escola. Espero que o trânsito disperse e me deixe chegar ao meu destino em segurança. Espero pela minha vez na caixa do supermercado. Eu só espero e espero e espero. Espero que algum desses lugares ou alguma dessas emoções me leve até mim. Porque de tanto esperar, perdi-me, e agora não sei onde é que posso esperar por mim. Espero pelas pessoas para me darem a mão. Espero por alguém que me roube o coração. Espero pelo abraço da minha mãe. Espero pelo sorriso da minha avó. Espero pelos conselhos da minha irmã. Espero por chegar a casa, o único lugar onde consigo ser genuinamente feliz. Onde consigo ser genuinamente eu. Onde consigo chegar à meta e deixar de esperar. 

Dizem que quem espera sempre alcança, mas isso nem sempre é verdade. Às vezes alcançamos desilusões e corações partidos. Às vezes alcançamos a perda e o desânimo. Às vezes alcançamos o tédio e desperdiçamos uma vida a esperar por aquilo que nunca foi nem nunca seria nosso.

Por isso, de que me vale esperar, se posso simplesmente lutar. Existem pessoas que nos pedem para esperar por elas e depois quando vamos a ver nunca chegaram ao destino, talvez porque nunca o fomos. Porque, se por um lado, o tempo é uma bóia de salvação, por outro é a nossa maior ameaça. Quem espera, desespera. E eu simplesmente cansei-me de esperar por aquilo que sei que nunca vou alcançar."

- Carina Subtil 

(Texto escrito no dia 27/10/2023)



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Acabei o Curso, e Agora?

 No passado mês de julho, terminei a minha licenciatura em Comunicação e Media pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria. Desde então, enviei muitos currículos, seja para trabalhos na minha área ou não. Embora eu acredite que termos um diploma e um curso superior nos abre mais portas e oferece mais oportunidades a nível de carreira, também sei ser realista e reconhecer que nada nos garante que vamos ter emprego na nossa área de formação imediatamente depois de terminarmos o curso. Sei que o meu ponto de vista não é consensual, mas a verdade é que o dinheiro não cai do céu e é sempre bom ter um plano B quando o plano A não corre como esperamos. Porque, de qualquer forma, tenho de trabalhar. Também decidi não fazer mestrado exatamente por isso; porque quero ganhar experiência profissional e independência financeira. Não tenho medo de trabalhar nem vergonha de aprender coisas novas. Também não serei a primeira pessoa a trabalhar em algo que não é pro...

I am (not) feeling 22

Hoje, dia seis de janeiro de dois mil e vinte seis, faço vinte e dois anos.  E a primeira coisa que me passa pela cabeça quando penso na idade que faço é: que horror! O tempo está a passar absurdamente rápido e parece-me uma idade demasiado "séria". Porque, tal como diz o título deste texto, não me sinto com 22 anos*. Mas talvez não me sentir com 22 anos não seja rejeitar a idade, mas aprender a lidar com ela à minha maneira. De repente já sou adulta, já trabalho, já ganho o meu próprio dinheiro, já desconto para a segurança social e as crianças e adolescentes já me tratam por senhora! Se, aos catorze anos, me tivessem dito que a minha vida ia dar tantas voltas, eu não acreditava. Sinto que sou sempre ligeiramente repetitiva nos textos que publico sobre o meu aniversário, ou até sobre o fim de ano, mas não é propositado. De facto, tenho sentido o tempo a passar demasiado depressa. O tempo passa por entre os meus dedos e às vezes nem sei o que fazer com ele; por vezes até pare...

Desabafos de uma estudante universitária #9

 #9 O Estágio e o Fim da Licenciatura  "Linda Leiria, quero cantar-te. Sou estudante da terra distante, sempre vou amar-te." É com muito orgulho que chego ao fim desta etapa. Nos últimos três anos, dediquei-me exclusivamente ao meu curso e não me arrependo disso. Foram três anos de muito trabalho, muito empenho, muita ansiedade, muita dedicação, muitas dores de cabeça e também muitas noites mal dormidas. Creio que já aqui disse isto, mas sempre pensei que ir para a universidade era uma coisa que só acontecia aos outros, aos mais inteligentes, aos mais ricos, aos mais populares, aos que têm a certeza daquilo que querem fazer no futuro. Na minha cabeça, o ensino superior era um desfio tremendo e só os melhores podiam estar à altura. Mas eu estava enganada, porque consegui. Tenho muito orgulho em mim e naquilo que consegui. Mas não foi um percurso fácil. Comecei o primeiro ano com vontade de desistir, com vontade de me ir embora por me sentir demasiado deslocada, desamparada e s...