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Comentários Não-Solicitados ao Corpo da Mulher

"Devias emagrecer!"
"Devias comer mais, estás muito magra!"
"Devias cuidar mais de ti!"
"Não uses roupas tão largas, não te favorece!"
"Não uses roupa tão justa, vê-se as curvas todas!"
"Não comas tantas porcarias!"
"Devias ir ao ginásio queimar essa celulite toda!"
"Se começares a fazer dieta agora, vais ver que no verão tens um corpo ótimo para usar bikini!"
"Não uses roupas tão escuras, és uma menina!"

Este texto é dedicado exclusivamente às mulheres e ao universo feminino. 

Tenho a certeza que, ao longo da vossa vida, já ouviram alguma destas frases ou, caso não tenha sido nenhuma destas, com certeza foi algo do género. As mulheres passam a vida a ouvir comentários não-solicitados sobre o seu corpo, muitas vezes saídos da boa de outras mulheres. Decidi portanto escrever sobre este tema, falar sobre o "machismo feminino" que muitas vezes se verifica na nossa sociedade e que se reflete muitas vezes em problemas de autoestima que não são valorizados devidamente. Esses comentários são proferidos muitas vezes por pessoas, nomeadamente mulheres, que conhecemos e que, supostamente, nos querem bem e se preocupam com a nossa "saúde". Estes comentários podem parecer inofensivos e até representar preocupação, mas a verdade é que ninguém sabe o verdadeiro efeito que têm ter na vida de quem os ouve. Por isso, se estiverem interessados em ler mais sobre este tema e entender a minha perspetiva, continuem a ler. 

Começo por vos colocar duas perguntas: Quando é um homem a fazer um comentário ao corpo da mulher é chamado de nojento e acusado de assédio, mesmo que, aparentemente, sejam palavras inofensivas e sem qualquer má intenção. Mas e quando é a mulher a falar sobre o corpo de outra mulher? Porque é que isso já é mais aceitável e não é interpretado como maldade mas sim como preocupação? Neste texto pretendo falar exatamente sobre isso. Sobre o facto de nós mulheres termos uma certa necessidade em nos compararmos umas às outras. Na verdade, é um facto consensual e incontestável na nossa sociedade que as mulheres são muito mais desagradáveis e más umas para as outras do que os homens são uns para os outros. Enquanto mulher, até eu reconheço isso. Até porque, quando era mais nova, era muitas vezes gozada por outras colegas por razões ridículas e absurdas.  Tudo isto porque a sociedade vive à base de preconceitos e estereótipos. Ideais ridículos que, em vez de incentivarem o bem estar da mulher, provocam a sua objetificação e promovem uma certa competição. Quanto mais se tenta normalizar e adotar uma postura inclusiva sobre "todos os tipos de corpos" mais se discrimina involuntariamente as características que cada mulher tem. Nem todas temos curvas, nem todas temos mamas ou rabo grande, nem todas temos uma pele perfeita, nem todas somos magras, nem todas somos loiras de olhos azuis. Mas todas temos uma característica em comum, todas somos igualmente bonitas, talentosas e merecedoras de respeito. 

O que é mais ridículo é que as pessoas têm de ter sempre algo para falar e comentar, mesmo não gostando que os outros falem e comentem sobre a vida delas. As pessoas adoram comentar a vida dos outros sem que eles lhe tenham pedido para o fazer. As palavras parecem estar sempre na ponta da língua e parecem ser selecionadas especialmente para ter algum efeito na vida de quem é alvo delas. Porque hoje em dia existem muitas poucas pessoas boas que genuinamente nos querem bem. Falo também dos mais velhos. Temos o caso das nossas avós que, embora o façam com uma certa inocência, com muito boas intenções e comparem muitas vezes aquilo que acontecia nos tempos antigos em relação com a atualidade, deixam-nos muitas vezes a pensar e a refletir sobre o nosso físico. 

Acredito que todos temos espelhos em casa e todos vemos o nosso reflexo através dele pelo menos uma vez por dia. Olhamos para o espelho e vemos as nossas cicatrizes, as nossas curvas, as nossas borbulhas, o nosso cabelo despenteado, as nossas olheiras, as marcas do passar do tempo e as nossas inseguranças. Mas também vemos certamente as coisas que nos fazem felizes, o nosso sorriso, o brilho no nosso olhar, a nossa determinação, as nossas rugas, todas as características invisíveis que nos tornam únicas. Não gostamos nem precisamos que ninguém nos relembre das nossas inseguranças mas gostamos de ter alguém que aplauda as nossas qualidades. Parece um pouco irónico mas é verdade, e é essa realidade que faz com que as críticas proferidas pelos outros sejam mais dolorosas. 

Quando somos adolescentes passamos por um grande processo de adaptação ao nosso corpo. É sempre estranho e desconfortável ver o nosso corpo a mudar. Existem adolescentes que não gostam do seu corpo e é perfeitamente compreensível porque nem toda a gente lida com as mudanças da mesma forma. Olhar para o espelho e ver um corpo com uma forma diferente daquela a que estávamos habituados é um choque tremendo, por isso existem muitos adolescentes que dizem que não gostam do seu corpo e os pais têm dificuldade em entender isso. Eu própria passei por esse processo e demorei algum tempo até gostar realmente do meu corpo e aceitar todas as transformações. Por exemplo, tenho atualmente dezanove anos e nunca gostei muito de usar roupas justas que realçam as gordurinhas da barriga e nunca fui fã dos croptops, que tanto estão na moda hoje em dia. Recentemente, tive de passar por mais uma prova e lutar para reerguer a minha autoestima. Em agosto, tive de ficar internada durante seis dias devido a um problema de pele. Antes do internamento, estive em casa fechada durante 3 dias com vergonha de sair à rua, com vergonha do meu corpo. Evitava passar pelo espelho porque cada vez que olhava para o meu reflexo não me reconhecia e chorava compulsivamente. Depois do internamento, quando a medicação fez efeito, eu comecei a ver o meu corpo voltar ao normal aos poucos e isso motivou-me e deixou-me mais aliviada, mas mesmo assim foi um processo que durou várias semanas. O meu corpo passou por muito e precisava de tempo para voltar ao normal, para cicatrizar. Também eu precisei de tempo para o voltar a aceitar. Mas, para além de mim, ninguém sabe como foi. Ninguém tem ideia do quão doloroso foi todo este processo. E depois criou-se na minha mente a ideia de que as pessoas iriam ver as marcas e iriam perguntar o que se passou e eu teria de contar a mesma história pela milésima vez. Agora chegou o inverno e, como não utilizo roupas que mostrem muita pele estou mais aliviada. Mas quando voltarmos ao verão, sei que os fantasmas vão aparecer novamente. 

Quando se deixa de falar ou pensar sobre um determinado assunto parece que esse assunto foi normalizado ou simplesmente não existe. Talvez isso tenha de acontecer em relação a este tópico. Porque este tópico não deveria sequer ser algo discutível. Porque não olharmos para o nosso umbigo e deixarmos de falar da vida e do corpo alheio? Porque não admirarmos a diversidade e as características de cada um e deixarmos de criticar os defeitos? 

O corpo da mulher é incrível. Passa por transformações e sensações muitas vezes inexplicáveis. Foi atribuída à mulher a grande responsabilidade que é gerar uma vida. O corpo da mulher muda completamente para ser o primeiro lar de uma criança. E tal como leva nove meses a adaptar-se para desenvolver um ser humano, também leva outros nove meses ou mais a voltar à sua versão original. Existem muitas mulheres que não querem ser mães precisamente porque não querem passar por essas transformações físicas. Por esses motivos é muito importante sermos mais compreensíveis e inclusivos. É importante termos um certo cuidado nas palavras que proferimos porque podem acabar por magoar alguém, mesmo que essa não seja a intenção. Porque nunca sabemos o estado real da autoestima de uma mulher e de que forma é que as criticas afetam ou não a sua saúde mental e a forma como olha para si própria. 

Por agora é tudo, espero que tenham gostado e que compreendam o meu ponto de vista sobre este tema. Fiquem bem, sigam a página do blog no instagram, comentem e partilhem este texto para ajudar o blog a chegar a mais pessoas. 

Um beijo e até breve.

- Carina Subtil 



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