Com o passar dos anos e à medida que fui crescendo, fui percebendo que a família é a coisa mais preciosa e importante que temos na vida. Partilhamos o mesmo sangue e a mesma árvore genealógica e agarramo-nos a essas pessoas até ao fim dos nossos dias. Há amigos que vão e que voltam, e há amigos que se tornam parte da nossa família com o passar do tempo. No entanto, perder um membro da família, sobretudo se for uma pessoa mais próxima de nós, é sempre doloroso.
Em 2023, escrevi o texto "O luto e as coisas que nunca superámos", que foi lido por mais de cem pessoas. Na altura tinha perdido a minha tia há relativamente pouco tempo e estava a ser complicado lidar com o luto e com a perda. Dois anos depois, senti novamente necessidade de escrever sobre este tema porque a minha mãe perdeu outro irmão e eu perdi mais um tio há cerca de quatro meses.
Os primeiros seis meses deste ano foram particularmente complicados porque estava muita coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida pessoal. Coisas que não eram nada positivas. Eu senti-me extremamente impotente; estava a terminar a minha licenciatura, passava grande parte da semana longe de casa, mas queria poder fazer alguma coisa para ajudar. Por volta do mês de março, um dos meus tios (irmão da minha mãe) foi diagnosticado com um cancro no pâncreas em estado terminal e, infelizmente, já não havia nada que os médicos pudessem fazer. Deram-lhe seis meses de vida mas apenas durou um mês e meio. Foi um choque. Um balde de água fria para todos nós. Durante esse tempo, a minha família juntou-se para dar todo o apoio possível aos meus primos e garantir que o meu tio vivia o tempo que lhe restava da melhor forma.
Receber a notícia de que uma pessoa que amamos tem apenas meses de vida é doloroso, angustiante e injusto. Por muito que nos digam que não há nada que se possa fazer a não ser esperar, nós continuamos a querer fazer alguma coisa para atrasar o tempo e prolongar a esperança. Esperança que um milagre aconteça. Esperança que não doa tanto. Esperança que não se abra um vazio no nosso peito. Esperança que o tempo pare e que as coisas nunca mudem. Esperança que seja apenas um pesadelo. Esperança que não seja verdade. No entanto, tal como um dos meus primos disse várias vezes nesse mês e meio, há males que vêm por bem. Porque eu acredito que tudo nesta vida tem um motivo e nada acontece por acaso, sejam as coisas boas ou as coisas más. Há pesadelos que nos assombram e põem as nossas vidas de pernas para o ar com um propósito. Neste caso, foi o propósito da união e do amor. Porque há ocasiões em que estar presente é mais importante do que qualquer palavra de conforto.
Estes dois anos foram muito complicados, uma autêntica montanha russa e várias visitas a hospitais. Mas acredito que neste momento a minha família está mais unida do que nunca. Todos estamos unidos por um bem maior. Todos estamos unidos e conscientes que tudo pode mudar de um momento para o outro e no próximo ano algum de nós pode já cá não estar. Todos estamos unidos e temos consciência de que a minha tia e o meu tio iriam gostar de nos ver todos juntos a comer, a beber, a rir, a conversar e a partilhar histórias e memórias.
Penso que já mencionei em algum texto aqui no blog que tenho alguma dificuldade em aceitar que todos temos um prazo de validade. De facto, a morte é a única certeza que temos na vida mas nunca sabemos quando vai ser o nosso último dia neste mundo. Além da morte, não há certezas.
A todos aqueles que estão a passar por um processo de luto e que sofrem com a dor da perda de alguém próximo e querido, quero deixar uma palavra de conforto. Acredito que a vossa dor não vai durar para sempre. A dor vai dar lugar à saudade e o vosso coração vai ficar um pouco mais leve. Mas é preciso dar tempo ao tempo. Quero acreditar que o tempo ajuda-nos a aceitar e a entender que a pessoa que amamos está agora a descansar num lugar melhor e a olhar por nós. E, um dia, vão todos estar juntos novamente.
- Carina Subtil

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