Esta é uma pergunta difícil de responder porque cada pessoa tem o seu
próprio tempo e a sua forma de gerir o sofrimento.
Nem sempre é fácil, mas tentamos. Tentamos todos os dias ser
alguém melhor. Tentamos todos os dias lutar contra as nossas inseguranças
e contra os nossos medos. Tentamos todos os dias evitar pensar na
pessoa que nos roubou o coração e, ao mesmo tempo, também o deixou em pedaços.
Não sabemos quando é que vamos voltar a dormir uma noite
tranquila sem a ansiedade nos dominar. Não sabemos quando é que a dor vai
acabar nem quando é que as vozes que moram na nossa cabeça se vão calar.
Não sabemos quando é que as memórias vão deixar de nos
assombrar. Mas a verdade é que não somos nada sem elas. De facto, são as memórias
que nos fazem ser quem somos. Através delas, formamos a nossa identidade e personalidade.
As memórias confortam e dão-nos forças para seguir, para lutar, para acreditar.
Somos um mero produto da passagem do tempo. Somos memórias em permanente
construção. Não há presente sem passado nem há futuro sem presente.
Às vezes penso, e sinto-me tentada a acreditar, que vivo uma
vida que não é completamente minha. Porque há sempre alguém ou alguma coisa que se apodera dela.
Há sempre quem ache que sabe mais da minha vida do que eu. E eu só queria poder viver a minha vida e poder fazer as minhas escolhas de forma
independente, sem ser bombardeada com opiniões indesejadas de terceiros e sem juízos de valor carregados
de hipocrisia.
Quando é que vai deixar de doer? As dores de crescimento,
quero dizer. Porque crescer dói. Crescer é extenuante. Crescer é uma escolha
que fomos obrigados a aceitar e a abraçar. Mesmo que queiramos reclamar e
refutar, não há hipótese alguma porque não podemos voltar atrás no tempo. Não
podemos mudar nada. O que foi feito, feito está. Resta-nos, portanto, não
cometer os mesmos erros do passado no presente. Resta-nos fazer diferente.
Infelizmente, a máquina que denominamos de coração, muitas
vezes é eloquente. O coração acha engraçado brincar com as emoções e com
os sentimentos como se fossem marionetas. O coração acha que é fácil
lidar com uma tempestade de incertezas e de perguntas para as quais ainda não temos
resposta. Ou até podemos ter uma resposta, mas simplesmente não queremos (ou não
podemos) responder. O coração é persuasivo e manipulador porque nos magoa e julga mesmo
quando sabe que estamos a tomar a decisão certa, mesmo quando sabe que bater
desenfreadamente por alguém não é suficiente.
Insistimos em viver em busca da perfeição, mas temos uma urgência
insaciável de fazer planos para o amanhã sem dar oportunidade ao
nosso corpo e à nossa mente de viver o hoje. E hoje eu pergunto-me… Quando é que vai deixar de doer?
E vocês respondem… Quando isto tudo acabar.
Mas não pode ser a única alternativa porque eu não quero que isto (o que quer que isto seja
realmente) acabe. Porque ninguém me pode garantir que há uma continuação. Ninguém me pode garantir que há outra vida para além desta e que lá vou poder encontrar todas as pessoas que amo e que já partiram. Há muita coisa que não quero nesta vida mas tenho
de aguentar, porque não é por eu não querer que vai deixar de acontecer. A minha
vontade não vale absolutamente nada. A minha vontade não é absoluta nem determinante. A minha vontade é, na
verdade, completamente irrelevante. É uma voz que não se deixa ouvir por medo da
vergonha e da rejeição. É uma voz impertinente, irreverente, teimosa, desajustada. É uma voz que pertence a alguém sensível, com sonhos e ambições, mas talvez, alguém que é praticamente, invisível. Alguém que só quer saber quando é que vai deixar de
doer.
(texto escrito no dia 24 de outubro de 2024)
- Carina Subtil

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