Avançar para o conteúdo principal

Quando é que vai deixar de doer?

Esta é uma pergunta difícil de responder porque cada pessoa tem o seu próprio tempo e a sua forma de gerir o sofrimento.
Nem sempre é fácil, mas tentamos. Tentamos todos os dias ser alguém melhor. Tentamos todos os dias lutar contra as nossas inseguranças e contra os nossos medos. Tentamos todos os dias evitar pensar na pessoa que nos roubou o coração e, ao mesmo tempo, também o deixou em pedaços.
Não sabemos quando é que vamos voltar a dormir uma noite tranquila sem a ansiedade nos dominar. Não sabemos quando é que a dor vai acabar nem quando é que as vozes que moram na nossa cabeça se vão calar.
Não sabemos quando é que as memórias vão deixar de nos assombrar. Mas a verdade é que não somos nada sem elas. De facto, são as memórias que nos fazem ser quem somos. Através delas, formamos a nossa identidade e personalidade. As memórias confortam e dão-nos forças para seguir, para lutar, para acreditar. Somos um mero produto da passagem do tempo. Somos memórias em permanente construção. Não há presente sem passado nem há futuro sem presente.
Às vezes penso, e sinto-me tentada a acreditar, que vivo uma vida que não é completamente minha. Porque há sempre alguém ou alguma coisa que se apodera dela. Há sempre quem ache que sabe mais da minha vida do que eu. E eu só queria poder viver a minha vida e poder fazer as minhas escolhas de forma independente, sem ser bombardeada com opiniões indesejadas de terceiros e sem juízos de valor carregados de hipocrisia.
Quando é que vai deixar de doer? As dores de crescimento, quero dizer. Porque crescer dói. Crescer é extenuante. Crescer é uma escolha que fomos obrigados a aceitar e a abraçar. Mesmo que queiramos reclamar e refutar, não há hipótese alguma porque não podemos voltar atrás no tempo. Não podemos mudar nada. O que foi feito, feito está. Resta-nos, portanto, não cometer os mesmos erros do passado no presente. Resta-nos fazer diferente.
Infelizmente, a máquina que denominamos de coração, muitas vezes é eloquente. O coração acha engraçado brincar com as emoções e com os sentimentos como se fossem marionetas. O coração acha que é fácil lidar com uma tempestade de incertezas e de perguntas para as quais ainda não temos resposta. Ou até podemos ter uma resposta, mas simplesmente não queremos (ou não podemos) responder. O coração é persuasivo e manipulador porque nos magoa e julga mesmo quando sabe que estamos a tomar a decisão certa, mesmo quando sabe que bater desenfreadamente por alguém não é suficiente.
Insistimos em viver em busca da perfeição, mas temos uma urgência insaciável de fazer planos para o amanhã sem dar oportunidade ao nosso corpo e à nossa mente de viver o hoje. E hoje eu pergunto-me… Quando é que vai deixar de doer? E vocês respondem… Quando isto tudo acabar.
Mas não pode ser a única alternativa porque eu não quero que isto (o que quer que isto seja realmente) acabe. Porque ninguém me pode garantir que há uma continuação. Ninguém me pode garantir que há outra vida para além desta e que lá vou poder encontrar todas as pessoas que amo e que já partiram. Há muita coisa que não quero nesta vida mas tenho de aguentar, porque não é por eu não querer que vai deixar de acontecer. A minha vontade não vale absolutamente nada. A minha vontade não é absoluta nem determinante. A minha vontade é, na verdade, completamente irrelevante. É uma voz que não se deixa ouvir por medo da vergonha e da rejeição. É uma voz impertinente, irreverente, teimosa, desajustada. É uma voz que pertence a alguém sensível, com sonhos e ambições, mas talvez, alguém que é praticamente, invisível. Alguém que só quer saber quando é que vai deixar de doer.

(texto escrito no dia 24 de outubro de 2024)

- Carina Subtil 



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Acabei o Curso, e Agora?

 No passado mês de julho, terminei a minha licenciatura em Comunicação e Media pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria. Desde então, enviei muitos currículos, seja para trabalhos na minha área ou não. Embora eu acredite que termos um diploma e um curso superior nos abre mais portas e oferece mais oportunidades a nível de carreira, também sei ser realista e reconhecer que nada nos garante que vamos ter emprego na nossa área de formação imediatamente depois de terminarmos o curso. Sei que o meu ponto de vista não é consensual, mas a verdade é que o dinheiro não cai do céu e é sempre bom ter um plano B quando o plano A não corre como esperamos. Porque, de qualquer forma, tenho de trabalhar. Também decidi não fazer mestrado exatamente por isso; porque quero ganhar experiência profissional e independência financeira. Não tenho medo de trabalhar nem vergonha de aprender coisas novas. Também não serei a primeira pessoa a trabalhar em algo que não é pro...

I am (not) feeling 22

Hoje, dia seis de janeiro de dois mil e vinte seis, faço vinte e dois anos.  E a primeira coisa que me passa pela cabeça quando penso na idade que faço é: que horror! O tempo está a passar absurdamente rápido e parece-me uma idade demasiado "séria". Porque, tal como diz o título deste texto, não me sinto com 22 anos*. Mas talvez não me sentir com 22 anos não seja rejeitar a idade, mas aprender a lidar com ela à minha maneira. De repente já sou adulta, já trabalho, já ganho o meu próprio dinheiro, já desconto para a segurança social e as crianças e adolescentes já me tratam por senhora! Se, aos catorze anos, me tivessem dito que a minha vida ia dar tantas voltas, eu não acreditava. Sinto que sou sempre ligeiramente repetitiva nos textos que publico sobre o meu aniversário, ou até sobre o fim de ano, mas não é propositado. De facto, tenho sentido o tempo a passar demasiado depressa. O tempo passa por entre os meus dedos e às vezes nem sei o que fazer com ele; por vezes até pare...

Desabafos de uma estudante universitária #9

 #9 O Estágio e o Fim da Licenciatura  "Linda Leiria, quero cantar-te. Sou estudante da terra distante, sempre vou amar-te." É com muito orgulho que chego ao fim desta etapa. Nos últimos três anos, dediquei-me exclusivamente ao meu curso e não me arrependo disso. Foram três anos de muito trabalho, muito empenho, muita ansiedade, muita dedicação, muitas dores de cabeça e também muitas noites mal dormidas. Creio que já aqui disse isto, mas sempre pensei que ir para a universidade era uma coisa que só acontecia aos outros, aos mais inteligentes, aos mais ricos, aos mais populares, aos que têm a certeza daquilo que querem fazer no futuro. Na minha cabeça, o ensino superior era um desfio tremendo e só os melhores podiam estar à altura. Mas eu estava enganada, porque consegui. Tenho muito orgulho em mim e naquilo que consegui. Mas não foi um percurso fácil. Comecei o primeiro ano com vontade de desistir, com vontade de me ir embora por me sentir demasiado deslocada, desamparada e s...