Hoje trago-vos um texto um pouco diferente e que já não publico aqui no blog há bastante tempo. Recentemente li o livro "A Máquina de Fazer Espanhóis", da autoria de Valter Hugo Mãe, e senti uma súbita necessidade de escrever uma review dele. Este livro tornou-se um dos meus favoritos da vida, porque aborda a terceira idade de uma forma pouco convencional e fala sobre vários temas estruturantes. Tocou-me bastante, por isso achei que era merecedor de um texto exclusivo aqui no blog. Se estiverem interessados em ler esta reflexão sobre uma obra que, a meu ver, deve ser lida por todos, continuem desse lado. No final deste texto vou também deixar a sinopse, para lerem caso vos tenha despertado algum interesse.
Confesso que tive alguma dificuldade em começar o livro devido à forma como é escrito. O autor tem uma escrita muito semelhante à de José Saramago: não utiliza letras maiúsculas no início das frases nem travessões para assinalar os diálogos entre as personagens. Por isso, se não estivermos completamente mergulhados no livro, é muito difícil acompanharmos o ritmo e sabermos distinguir as narrações dos diálogos. Quem não gosta de Saramago nem deste tipo de escrita não vai querer ler, provavelmente, mas aconselho a darem uma oportunidade porque vale realmente a pena. Eu confesso que também torci o nariz e estive quase a largar o livro antes mesmo de começar, mas ainda bem que não o fiz.
O protagonista e narrador do livro é o senhor António Silva, de 84 anos, que no início da narrativa perde a sua mulher Laura e é depois colocado num lar de idosos chamado "Feliz Idade". Ao longo do livro, o senhor Silva, como é carinhosamente tratado na instituição, vai descrevendo o seu dia a dia na sua nova casa de um modo muito profundo e sarcástico, mas também com a descontração característica da idade. Faz várias reflexões sobre os amigos que fez, sobre o fascismo, a morte, o amor e Deus. De facto, a questão da religião é muito sublinhada na obra porque o protagonista não acredita em Deus nem em nada que evolva o catolicismo e mostra-se muito revoltando, deixando bem clara a sua posição.
Certamente que muitos de vocês têm ou já tiveram algum dos vossos avós num lar de idosos e ouviram as reclamações deles sobre a tristeza que sentem por lá estar. Certamente que vocês muitas vezes optam por desvalorizar essas reclamações e também não sabem muito bem que resposta lhes dar para apaziguar as suas dores. Este livro representa perfeitamente todas essas frustrações de que os nossos avós nos falam; as saudades da sua casa, as saudades do tempo em que eram mais jovens e não tinham dores no corpo nem na alma, as saudades do amor das suas vidas, as saudades de se sentirem úteis. Foi também por todos estes motivos que este livro me tocou tanto, especialmente porque me fez lembrar da minha avó materna, que esteve num lar quatro anos antes de falecer. E também porque a minha mãe trabalha nesse mesmo lar e me relata muitas vezes episódios que estão perfeitamente retratados neste livro. Se tiverem oportunidade, por favor, é muito importante que leiam. Antes de terminar, vou deixar-vos aqui a sinopse do livro.
Sinopse:
"O que mudará na vida de António Silva, com oitenta e quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma?
Esta é a história de que, no momento mais árido da vida, se surpreende com a manifestação ainda de uma alegria. Uma alegria complexa, até difícil de aceitar, mas que comprova a validade do ser humano até ao seu último segundo.
A Máquina de Fazer Espanhóis é uma obra de maturidade, conseguida pela grande capacidade de criar personagens que este autor sempre revelou, aqui enredadas nas questões da velhice, da sua ternura e tragédia, resultando num trabalho feito da difícil condição humana mesclada com o humor que, ainda assim, nos assiste. É uma imagem livre do que somos hoje, consequência de tanto passado e de dúvidas em relação ao futuro. É ainda um livro, tão delicado quanto sincero, de reflexão sobre a fidelidade na amizade e no amor."
Por agora é tudo. Espero que tenham gostado! Fiquem bem, sigam a página do blog no instagram, comentem e partilhem este texto para ajudar a página a chegar a mais pessoas.
Um beijo e até breve!
- Carina Subtil

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